A rainha e a felicidade

Lucas, 9, 23-25: Em seguida dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, esse a salvará. Pois, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, e perder-se, ou prejudicar-se a si mesmo?

Sempre falo de meus sentimentos antimonarquistas, e realmente a idéia de uma sucessão dinástica no governo de um país me parece um tanto escandalosa. Ainda assim, não consigo deixar de sentir uma tremenda simpatia pela rainha Elizabeth II da Inglaterra. Numa época em que as pessoas valorizam tremendamente os próprios desejos, e adoram se gabar de fazer as coisas de qualquer jeito e de ser “populares” (o que sempre me soa como uma desculpa esfarrapadíssima para a própria preguiça), é bom ter um ícone mundial da renúncia e da austeridade.

Aliás, se me pedissem para apontar o verdadeiro dogma do nosso tempo, aquela opinião inquestionável que paira acima dos debates e que é usada para encerrá-los, diria imediatamente que é o seguinte: não há nada mais importante do que a felicidade pessoal, e a felicidade pessoal só pode ser obtida pela realização dos próprios desejos. Afinal, diante de olhares de reprovação, qualquer um pode ganhar seus interlocutores ao convencê-los de que “realmente queria” alguma coisa. Se há um “desejo verdadeiro”, tudo é permitido; aliás, tudo é obrigatório, e as pessoas que acharem que não certamente são recalcadas, infelizes, nunca fizeram sexo na vida, odeiam a raça humana e no fundo são homossexuais enrustidos.

Acompanhar a vida inevitavelmente pública de diversas personalidades é vê-las pulando de desejo em desejo, sem jamais renunciar a essa busca; acompanhar a produção cultural é reencontrar constantemente a história da pessoa que, cansada da vida de renúncia, decidiu realizar seus próprios desejos e sentir-se especial, abandonando seu emprego, sua família, ou ambos. O dever é algo aceitável, desde que não entre em conflito com o desejo pessoal; se o cumprimento do dever por alguém afeta seus próximos, estes são sempre retratados como justamente ressentidos. Ninguém diz: seu ressentimento não passa de uma frescura. Se seu pai morreu por uma causa, orgulhe-se e honre sua memória, em vez de ficar choramingando pelos carinhos que você mesmo deixou de receber.

Pode-se argumentar que uma pessoa com espírito de dever e renúncia sempre atrai free riders, aproveitadores. É verdade. Mas, como diz Sócrates no Górgias, é melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça. E, francamente, descontando os ideais de santidade, um belo ideal a que todos deveriam almejar (supondo que queiram vidas razoáveis) é o de conseguir fazer sacrifícios sem contrariedade ou ressentimento.

Porque, em meio a tantos escândalos, em meio a tantas vilezas perpetradas pela mídia, a rainha Elizabeth II sempre transmite austeridade e essa renúncia, essa impressão de cumprir o dever sem preocupar-se com os próprios desejos, não tenho como não admirá-la. Sim, eu sei que ela é milionária, que vive num palácio, mas não estou falando de riqueza; qualquer pessoa pode transmitir essa dignidade. Falo da rainha porque todos a conhecem.

Tudo isto tem a ver também com o fato de alguém ser um modelo. Hoje muitas pessoas querem ser modelos; não apenas querem ter a profissão de modelo, ou alguma profissão em que haja forte exposição própria, como querem ser, na expressão que Shakespeare pôs na boca de Henrique V, makers of manners, os inventores dos costumes, aqueles que não imitam, mas são imitados. Mas ser um modelo de quê? Naturalmente, um modelo de realização dos próprios desejos, e não, como a rainha Elizabeth II, um aparente modelo de renúncia aos próprios desejos em nome de coisas mais relevantes.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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