Preconceito contra os protestantes

Todos sabemos que quando se condena “o preconceito” o que se reprova são só algumas más disposições – contra gays e negros, por exemplo. E mesmo que eu creia no direito universal à idiotice, também creio no meu direito de dizer que uma predisposição gratuita e contrária a gays e negros é uma pura idiotice.

Agora, as pessoas que se julgam “esclarecidas” costumam nutrir fortes preconceitos também, o que é muito fácil de demonstrar. Em meu meio social, acho que nenhum grupo é mais implicitamente rejeitado do que… os protestantes.

Eu não sou protestante. Sou católico. Os católicos de um lado crêem que os protestantes são geralmente mais fervorosos do que eles, mas também tendem a julgar os protestantes mais toscos. Eu não tenho muita idéia de como os protestantes vêem os católicos.

Pessoas não-católicas (e algumas católicas) olham para o protestantismo como se ele fosse o último estágio antes da completa dissolução da inteligência. Conversões ao budismo são vistas como um sinal de “esclarecimento”, conversões ao islamismo como um sinal de um desejo de firmeza, e conversões ao catolicismo como um sinal de algo grande e misterioso. Conversões ao protestantismo são vistas, na melhor da hipóteses, como uma lavagem cerebral. Vê-las assim, obviamente, é também pura idiotice.

Sempre nos julgamos a nós mesmos bons e honestos, mas não julgamos que aqueles de quem não gostamos sejam também bons e honestos. Podemos admitir que um neocatólico tenha passado por um longo e árduo processo interior. Não podemos admitir que um neoprotestante tenha passado por algo semelhante?

Admito que os protestantes sejam prejudicados na percepção de sua “identidade coletiva” por sua fragmentação. Ninguém de fora julga que o presbiterianismo e a Igreja Universal do Reino de Deus sejam a mesma coisa. Tanto que o presbiterianismo é recebido com um sentimento mais próximo da indiferença (“o que é isso?”), enquanto a IURD é recebida com asco e horror. Eu nunca entrei numa IURD (e, como católico, nem pretendo; no offense). Mas sei que para 95% das pessoas que conheço admitir-se freqüentador da IURD é o mesmo que admitir ter lepra mental. Todos os atos de um freqüentador da IURD seriam explicados por sua lealdade a esta denominação, sempre usando aquela mesma frase: “Bom, mas fulano vai na Universal, né? Então já viu.”

Não escondo que gostaria de ver as mesmas pessoas que ficam denunciando o uso de palavras como “crioulo” e “bicha” denunciando também o uso pejorativo de “crente”, e que entendessem que falar “essa crioulada” tem a mesmíssima malícia que falar “esse bando de crente”.

Cabe ainda fazer uma ressalva quanto a mim mesmo. Nunca vi um protestante designar-se a si mesmo como “protestante”. Normalmente eles se designam pelo nome de sua denominação particular (“batista”, “presbiteriano”) ou usam a frase “eu vou na [Nome da Denominação]”. Suponho que um protestante, ao ser assim chamado, sinta-se mais ou menos como eu, católico, me sinto ao ser chamado de “papista” (embora eu ache o epíteto um pouco engraçado, para dizer a verdade). Porém, nossa disputa é antiga, e o eu chamá-los assim não é sinal de que eu os menospreze.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com