Norma #1 da vida pseudo-intelectual

Ficar se referindo a autores como se fossem vinhos ou alguma outra espécie de riqueza a ser consumida. Paradoxalmente, essa é a própria concepção burguesa do saber.

“Paradoxalmente” porque o saber tem utilidade. Eu mesmo nunca abri um livro sem ter idéia do que esperava encontrar lá dentro: uma resposta ou ao menos um auxílio para um problema qualquer. Às vezes me escrevem perguntando o que ler. “Leia o que te interessar, ué. Pegue o que você gostaria de entender, uma pergunta qualquer, e saia lendo a respeito.”

Meu tipo ideal burguês, baseado nos burgueses que já conheci — sobretudo naquela próspera cidade ao sul da minha amada ex-capital — é o sujeito que tem uma certa vergonha de levar uma vida baseada na utilidade, produzindo, comprando e vendendo coisas materiais, e por isso gosta de alardear seu amor pelo inútil, como se o reino das artes liberais fosse uma espécie de nuvem sublime no vácuo. Esse é o culto da ilustração, do verniz. Admito que buscar ilustrar-se é melhor do que colecionar selos ou filmes pornográficos.

Admito ainda — nem sou maluco, o próprio Aristóteles já falava disso — que há um prazer no aprendizado. Mas esse prazer é uma decorrência da busca por respostas, e não um fim em si. E, segundo Viktor Frankl, a busca do prazer pelo prazer (se não me engano, é o que ele chama de hiper-intenção em Fundamentos antropológicos da psicoterapia) é uma das causas da frigidez. Uma mudança do alvo certo — desejo por algo, do qual decorre o prazer — para o alvo errado — desejo de prazer.

Mas volto ao burguês. “Nossa sociedade”, para mostrar que eu também sei repetir clichês, tem horror da idéia de utilidade e uma relação problemática com a idéia de finalidade. Utilidade e finalidade parecem coisas capitalistas e, é claro, o capitalismo é mau, mau, mau, uma criação de Anakin W. Bush Skywalker. Não há nada vergonhoso em produzir, comprar e vender. Inclusive objetos chamados “artísticos”, como peças, poemas, canções, quadros etc. E qualquer artista, assim como qualquer pessoa, subordina querendo ou não todas as suas ações a uma finalidade qualquer, o que é tão natural quanto inevitável.

Na hora em que o burguês, que é quem faz o mundo girar — não o político auto-iludido sebastianista imbecil que diz que “gerou empregos” etc — , sair do armário, acho que até a produção intelectual e artística melhoraria. Ele não teria mais vergonha de admitir que as obras precisam atender à finalidade de comovê-lo, de entretê-lo etc. Os artistas e intelectuais abandonariam sua condescendência paternalista para com o público.

Até lá, vai vigorar uma certa esquizofrenia. O sujeito trabalha durante o horário comercial para ser outra pessoa durante o resto do tempo. E essa outra pessoa vai vir à tona nas horas de lazer. Por isso é que a vida intelectual é concebida por esses “burgueses” como uma espécie de grande recreio das letras, indistinto da pesquisa e da investigação.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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