De Nora Helmer a April Wheeler

Por que fui me casar com aquele panaca?

Não li o livro Revolutionary Road, que em português se chama Foi apenas um sonho (mas gostaria de ler, até pus na minha lista da Livraria Cultura) — apenas vi o filme homônimo. E gostei. Primeiro, porque é um filme sem mensagem, e eu não agüento mais histórias com mensagem, ou que pressuponham que autor e espectador compartilhem uma cosmovisão peculiar para que haja empatia. Segundo, porque me pareceu uma retomada de Casa de boneca (cujo título original tem “boneca” mesmo, não “bonecas”), de Henrik Ibsen.

No Brasil, Ibsen é conhecido de quem gosta de teatro, mas não do famoso “público em geral”. Por isso vou resumir a história. Nora Helmer salvou a vida do marido falsificando a assinatura do próprio pai para obter um empréstimo no banco. Com o dinheiro, puderam viajar para climas mais amenos do que a Noruega e o marido ficou curado. De volta, ele ascendeu no banco em que trabalhava. Nora Helmer pagou o empréstimo com dificuldades, usando o dinheiro que o marido lhe dava para si e para a casa. Às vésperas do Natal, o marido promovido anuncia demissões, incluindo a do funcionário que emprestou o dinheiro a Nora. Ele ameaça contar da falsificação etc e, em suma, faz isso. Quando Torvald, o marido de Nora, descobre, ele a repudia. E ela, em vez de aceitar a tragédia, as conseqüências de sua hybris, decide sair de casa, dizendo a Torvald que “esperava um prodígio”. Não me parece exagero dizer que o prodígio seria Torvald ficar a seu lado; ele deve a vida a ela. Hoje o dilema parece datado, porque para muitos de nós colocar essa relação íntima à frente de outras coisas, como o bom nome (isto não é coisa pouca; São Francisco de Sales disse que a reputação é um dos maiores bens terrenos), parece a coisa mais natural do mundo. Se fosse para continuar, numa versão contemporânea, provavelmente Torvald mentiria para preservar a mulher, ou destruiria alguma outra pessoa, eles virariam um casalzinho Macbeth, e algum crítico diria que a história “retrata a banalidade do mal” ou “o cinismo da sociedade contemporânea”.

Em Revolutionary Road, April Wheeler (Kate Winslet) diz ao marido, enfadado com a vida suburbana e com o emprego, que eles deveriam se mudar para Paris, e que ela trabalharia para sustentar a família até que o marido “se encontrasse”. Os bens que possuem ainda dão uma folga financeira. O que interessa a ela é recuperar o fascínio que um sentia pelo outro, ou ao menos o fascínio que ela sentia por ele. Enquanto dura o otimismo da viagem e da mudança, os dois fazem sexo loucamente. April chega a dizer ao marido que, apesar de grávida, faria um aborto apenas para não prejudicar os planos. Frank (Leonardo DiCaprio), o marido, recusa a oferta. O que ela não sabe é que ele recebeu uma proposta de promoção, e que pode vir a ganhar muito mais dinheiro. Quando ele fala da promoção, e diz que prefere ficar, April fica literalmente louca. Após uma briga de horas, acorda fingindo-se a mais banal das donas-de-casa e, aproveitando a ausência dos filhos, faz ela mesma o aborto, o que a leva à morte.

O que essas duas mulheres têm em comum é o que muitas mulheres têm em comum: a expectativa de que seus maridos façam grandes coisas. Nora gostaria que o marido enfrentasse a sociedade. April, que o marido não vendesse a alma em troca de conforto material. Claro que se pode alegar, no caso de Revolutionary Road, que há uma questão de fundo sobre “sentir-se especial”, mas a estrutura é a mesma. Quando a mulher percebe que o homem que ela amava porque admirava, e admirava por ser forte, simplesmente é mais um homem comum e banal, ela não apenas começa a questionar a si mesma enquanto mulher (“como pude ter me enganado assim?”) como ainda sente horror da idéia de ter tido filhos com ele.

Desde a estréia, Casa de boneca é chamada de “peça feminista”. Ibsen sempre recusou a pecha — e olha que ele era um dramaturgo “de tese”, de mensagem, ainda que sempre fosse bom demais para suas próprias armadilhas. Não é difícil entender a razão. Toda vez que tive contato com obras declaradamente “feministas”, senti repulsa pelas personagens femininas. Mas Nora Helmer, ou as protagonistas de George Eliot, e até mesmo, numa certa medida, a própria April Wheeler — mulheres capazes de grandes gestos — só inspiram admiração. Elas não estão desafiando a sociedade ou as convenções apenas porque sim, ou porque exigem seu sacro direito de dançar peladas na chuva ao som de Britney Spears — isto é, apenas porque são mimadas — , mas porque não poderiam amar um homem menor do que elas mesmas. Isso não torna essas obras “machistas”, porque há uma expectativa de reciprocidade. Ai do Torvald que se casar com uma Nora; isto é um fato da vida, não uma grande mensagem a ser incutida na cabeça dos espectadores.

Observação: que ninguém leia nas minhas palavras uma aprovação da oferta de aborto de April Wheeler. O que quero dizer é que para qualquer mulher essa é uma “grande” oferta. Mas também me parece razoável que nenhum homem deveria aceitá-la. Se não por ser contra o aborto (como eu, inequivocamente), por saber que um dia, no futuro, a mulher não o perdoaria por isso. A oferta de April Wheeler deve ser entendida apenas como sinal daquilo que ela está disposta a fazer.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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