A história que provavelmente não será escrita

Alguém – não eu – deveria desarmar-se de tudo e ir a Pernambuco conversar com a família da menina em quem fizeram o aborto. Tentar passar um tempo com a própria, mesmo prometendo não tocar no assunto. Poderia ver a tal assistente social, os “médicos”, o bispo, o padre. Poderia obter o laudo que confirma que aquela gestação em particular representava mesmo um risco altíssimo – já que até meninas de cinco anos já pariram e continuaram passando bem, ué, não custa pedir uma confirmação. Se o laudo fosse esse mesmo, e talvez mesmo que não fosse, valeria a pena consultar um especialista em direito canônico para averiguar a excomunhão. Claro que o autor da matéria inexistente também poderia explicar o que é uma excomunhão e, se tivesse um pouquinho de senso de humor, poderia ridicularizar os não-católicos que ficam chocadinhos e põem o ovo na boca para dizer: “óóóóóó, excomunhão!” Também poderia, é claro, dar alguns números sobre aborto e contextualizar a questão. Por fim, ou talvez por início, uma citação de Wedekind.

Eu acho que essa história não será escrita porque as pessoas chiques diplomadas gostam cada vez menos de histórias. Diga que eu sou desumano, canalha, sórdido: mas essa história de Pernambuco é ótima de ser contada. É comovente em todo o seu horror. Mas ninguém que tenha um diploma universitário quer ser comovido – exceto pela visão de uma versão melhorada de si mesmo numa tela de cinema. No mais, todas as histórias já são lidas em busca de teses ou, se o leitor gosta de se julgar inteligente, de “apresentações de problemas”. É verdade que o esquerdista chique médio olha a história de Pernambuco como uma apologia do aborto, e que o ditirambo “aborto não” também pode cansar (ainda que eu o defenda absolutamente). Mas os dois lados podem reduzir a história a uma questão, e uma história pode ter uma questão, ou apontar uma questão, mas uma história só pode se reduzir a uma questão se o autor ou o leitor quiserem. Alguns autores quiseram isso deliberadamente; cada personagem representa um lado e pronto. Outros sequer pensaram nesse assunto – alguém poderia me dizer que argumento um personagem como o Rei Lear estaria defendendo? Ou alguém seria estúpido a ponto de achar que “Rei Lear” é apenas a mensagem “devemos perdoar os pais” em trocentos mil caracteres? O nosso leitor / espectador chique moderno seria.

Veja a micro-sinopse: garota de nove anos é estuprada pelo padrasto e engravida. Com quatro meses de gestação, uma assistente social decide fazer um aborto e bloqueia o acesso de um padre que acompanhava a família. Assim que o aborto é realizado, o bispo da cidade anuncia que a família e os médicos estão excomungados. Tudo nessa história é terrível. Como na história de Édipo. Provavelmente as pessoas chiques querem abortar os filhos do padrasto porque, assim como o indeferenciado filho-marido, pai de seus irmãos, os bebês da menina de 9 anos ameaçam sua necessidade visceral de viver num mundo Barbie Fashion Fever – dizendo, é claro, que a menina é que “deveria ter o direito” de brincar com a boneca. Um aborto é uma catarse; junto com ele, você purga o terror de que a sua vida tenha de ser vivida em função de alguém e não de você mesmo. Não, não estou falando com a sertaneja ou favelada reaça que não tem medo de parir, estou falando com você que pode ficar lendo este blog na sua tela de cristal líquido. Você admite que pode gostar de Édipo, a peça: o cânon ocidental está aí para validar isso. Mas e a tragédia verdadeira que sem muitas mediações trata de quem é próximo no tempo e no espaço? Vamos começar imaginando a protagonista, uma menina de 9 anos que brinca de bonecas, que sabe que dentro da barriga de uma mulher grávida está um bebê vivo, e que sente pelos bebês aquilo que as meninas de 9 anos sentem…

Autor: Pedro Sette-Câmara

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