Pode ser só um desabafo

Mas acho que Watchmen é um dos piores filmes que já vi. Não li os quadrinhos, nem vou ler, e espero que alguém que pretenda defendê-los odeie o filme também.

Vejam só, nada contra super-heróis. Sei que pode haver rejeição estética a alguma coisa, e que ela não deve ser transformada em princípio. Por exemplo, até bem pouco tempo eu detestava filmes de faroeste somente por causa das roupas, mas acho que não cheguei a transformar uma idiossincrasia do meu gosto em uma prova de por que aqueles filmes não prestavam. Você pode simplesmente achar que não é possível assistir a um filme em que um cara se veste de morcego para combater o crime. Eu acho que The Dark Knight foi o melhor filme de 2008.

Comecei a odiar Watchmen porque ele me pareceu usar uma estratégia meio brasileira de sedução. “Olha só, nós éramos os super-heróis, mandávamos benzão, hoje estamos velhos e ferrados, mas ainda temos alguns truques na manga”. Parecia um show de Toquinho e Vinícius contando histórias do passado. Ou do MPB-4. Depois, admito, tive uma forte rejeição estética em relação ao homem azul fosforescente. Também não consegui acreditar que “o homem mais inteligente do mundo” fosse usar gel no cabelo.

E a partir de um dado momento ficou claro o anti-intelectualismo do filme, que permeia uma pá de filmes. É sempre assim: os caras mais inteligentes acham que a humanidade não vale nada, e é preciso extingui-la; aí alguém se insurge contra eles, e os vence porque, com toda sua inteligência, esqueceram o coração. Em Watchmen isso só aparece pela metade: o “homem mais inteligente do mundo”, que também é um malvadão, realiza seu objetivo – mas, como o cara mais poderoso do mundo, o azul fosforescente, acaba concordando, não há coração que impeça a maldade. Os mais inteligentes sempre são maus e querem extinguir os menos inteligentes. O que demonstra, claro, que para aqueles “mais inteligentes” ser inteligente significa ser parecido com eles.

Realmente, é o caso de se pensar se essa insistente separação entre inteligência e bondade não passa de uma exteriorização artística do ressentimento fundamental da nerdice. Você pode não conseguir se aproximar da menina bonita, mas consegue escrever uma história complicada em que milhões de pessoas são mortas para que ao menos você pareça inteligente e tenha justificação diante do seu grupo.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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