A violência ilimitada

Quando esteve no Brasil em 2000, René Girard falava de como as vítimas de ontem têm se tornado os acusadores de hoje; este é, em síntese, o fenômeno do “politicamente correto”. Anos depois, a situação levanta uma questão urgente. Com os puxões de orelha no Bispo Williamson, com outro bispo afirmando que o maior holocausto é o do aborto legalizado, e, por que não?, comigo mesmo recordando diversos outros massacres de inocentes – cristãos & quaisquer pessoas que desagradassem aos comunistas, armênios etc; e também não há por que não contar aí a escravidão dos negros, por exemplo – , cabe perguntar qual é a atitude correta e mais adequada para o presente e para o futuro em relação aos males passados.

Certamente uma competição para ver que grupo foi o mais massacrado não sugere um espírito razoável. Diante do espírito intervencionista moderno, de “vamos resolver tudo por meio do governo”, já poderia imaginar uma comissão da ONU responsável pela contabilidade e quem sabe até por uma proporcionalidade de recordações devidas aos massacrados do passado. Claro que haveria disputas sobre os números e sobre os grupos eleitos (a ONU não contaria os bebês abortados, por exemplo), mas acho que não haveria disputa sobre a vantagem da obrigatoriedade de uma certa atitude em relação aos massacrados. Além de criminalizar o chamado “negacionismo” do Holocausto, também seria possível criminalizar diversos outros “negacionismos”. Assim, por exemplo, seria possível bloquear a entrada da Turquia na União Européia, pois lá não se pode falar do massacre dos armênios. Perpetuar o ciclo de retribuições por meio das leis sempre tem “vantagens” – exceto a vantagem de estimular o fim dos ressentimentos (justos ou injustos).

E claro que muito do ressentimento de hoje contra o esquecimento ou obscurecimento de certos massacres vem da presença continuada do Holocausto na mídia. No entanto, os ressentidos não se dão conta de que isto acontece quase que inteiramente pela ação privada dos judeus, e que cabe a eles, ressentidos, iniciar suas próprias “campanhas” se assim desejarem. É injusto que se criminalize qualquer opinião – o direito à liberdade de expressão termina na incitação à violência imediata, não na afirmação de barbaridades – , mas o desejo de relembrar os sofrimentos do passado (ou, no caso do aborto, de sofrimentos constantes) depende sobretudo da vontade no presente.

Essa relembrança, por sua vez, vive de uma tensão: de um lado, é absurdo negar o sofrimento antigo, ou procurar atenuá-lo. Não é incomum ouvir dizer que as barbaridades perpetradas por socialistas de toda espécie (nazistas, maoístas, stalinistas etc) dependem da percepção de que o outro não é humano. Mas por isso mesmo também é absurdo, sobretudo para aqueles que vivem confortáveis nas capitais do Ocidente, negar a humanidade aos violentos. Por mais difícil que seja, cabe a nós religiosos pedir pelo perdão de todos, inclusive dos piores; e cabe não negá-lo, se por acaso for pedido sincera e contritamente. Claro que estou falando em abstrato; meus familiares, até onde sei, não foram exterminados; mas não é difícil perceber que a idéia de um “pecado sem perdão” é a justificativa perfeita para uma retribuição de violência ilimitada.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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