Ao fim do Carnaval

Ainda há blocos; o Carnaval não acaba. Há blocos o ano todo; esparsos, mas há. Antropólogos dizem que o Carnaval é marcado pela abolição das diferenças, e têm razão; mas isso não acontece o ano inteiro?

Neste dia de calor desumano cá no Rio de Janeiro eu vou percebendo que os brasileiros parecem mais unidos por um senso de zombaria do que de respeito. Não temos modelos comuns. Um americano pode invocar Thomas Jefferson ou outro founding father para encerrar uma discussão – e mesmo que o fato de os founding fathers terem sido senhores de escravos faça a Constituição americana, a Declaração de Independência etc parecerem uma palhaçada, estes documentos foram invocados pelos líderes que conquistaram direitos civis. Um brasileiro talvez dissesse: “Que bela porcaria, essa gente falando em liberdade com esse monte de escravos aí, vamos rasgar e esquecer tudo isso e começar tudo de novo.” Mas os americanos preferiram levar as promessas dos documentos mais a sério do que as gerações anteriores – e mesmo que o Leviatã só tenha crescido, a mim parece impossível não admitir que isso aconteceu porque a Revolução de 1776 manteve a escravidão.

Quem poderíamos invocar como grande referência comum? Acho que as únicas figuras que ninguém – não consigo pensar em ninguém – desrespeitaria de antemão são Camões e Fernando Pessoa. Dois poetas. Mais alguém?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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