Darwinices

Já declarei que o meu interesse pelo assunto “teoria da evolução” tende a zero. Antes que você se escandalize com isso, devo dizer que eu também me escandalizo com o fato de alguém não querer discutir as diferenças entre o teatro de Shakespeare e o de Chekov o dia inteiro. Ou o de Ibsen. Se eu tivesse de escolher entre A origem das espécies e Hedda Gabler, ficaria com a peça sem pensar um segundo.

Mas eu me interesso pela guerra cultural em torno da teoria da evolução. E, antes de entrar nesse assunto, devo dizer que todo assunto pode ser tratado de duas maneiras diferentes. Na primeira, chamada científica, a pessoa que investiga sacrifica suas preferências e desejos em nome do objeto investigado. Isso pode nunca ser perfeito: é uma atitude, um estado subjetivo, e portanto depende de ser mantido pelo investigador. Na segunda, dominante no jornalismo e em blogs (quase nem poderia ser diferente), os assuntos são tratados como componentes de identidade e, portanto, de auto-afirmação. “Eu possuo o melhor argumento, logo sou melhor do que você”. Um argumento pode ser ostentado em público como uma roupa, um carro ou uma namorada. Sobretudo por quem não sabe se vestir, não tem carro e nem namorada. Queremos ser ricos; queremos ser vistos como ricos.

Faço essa longa ressalva para dizer que nada sei sobre a evolução. Não sou biólogo e, francamente, não vou passar a ser. Sou leigo nisso e admito a existência de um domínio de especialistas. Não sei nem se eu saberia formular a teoria da evolução como tese. Ontem fiquei tentando e o melhor que consegui foi “ocorrem mudanças genéticas aleatórias que afetam o grau de adaptabilidade dos seres ao ambiente; os mais adaptados sobrevivem e se reproduzem, passando seus genes adiante”. Se essa tese é verdadeira ou não, não ligo a mínima. Prefiro pensar em Hedda Gabler.

O que eu não consigo entender, enfim, é como essa tese pode contradizer a tese da existência de Deus e a existência da religião. Primeiro porque a questão da origem da vida é distinta da questão da evolução ou não-evolução. É evidente que Deus poderia ter criado o mundo com leis evolutivas biológicas. O fato de os seres “evoluírem” não prova nem desprova a existência de Deus. Admitindo que Darwin era um cientista sério – sem ironias do católico aqui – os darwinistas de botequim estão apenas se apropriando de sua teoria para manifestar seu desgosto com pessoas religiosas quaisquer, e não só aquelas que seguem uma interpretação literal do Gênesis – interpretação jamais adotada ao menos pela Igreja Católica; se você não sabe, vá se informar, depois volte. Espírito científico, rapaz! Agora, consigo perfeitamente compreender o desejo de reagir contra um moralismo petulante que pretenda governar sua vida; mas também consigo ver que a teoria da evolução está apenas sendo usada como porrete, com total desprezo pela questão de os seres vivos realmente “evoluírem” ou não.

Exatamente como a religião merece ser distinguida das apoteoses de tosquice dos religiosos, tenho certeza de que a teoria da evolução merece ser distinguida dos xiitas que se julgam iluminados por não ser as pessoas de quem não gostam. Se o espírito da religião é de caridade, o espírito da ciência me parece ser de prudência. É impossível não comparar as pessoas que brandem a teoria da evolução em blogs e jornais com pregadores. É impossível não sentir que as celebrações do “ano Darwin” parecem pretender marcar uma “nova era” em que a “ciência” vai suplantar a “religião” e que Darwin, logo um velhinho barbudo, virou garoto propaganda da anti-religiosidade. Nesse sentido, não há nova era: a disputa de atitudes é tão velha quanto o mundo, e a atitude que hoje se pretende “científica” é a velha atitude prometéica. Novamente devo recordar que não estou discutindo o conteúdo da teoria da evolução, mas seu papel na criação e afirmação da identidade de não-especialistas letrados o suficiente para querer ser vistos não apenas como bonitos ou bem-vestidos, mas também como donos de certas opiniões. Até porque um dos grandes mitos modernos é que cada um deve ter a sua própria opinião, sendo deveras deselegante usar de sinceridade e admitir: “Não sei, francamente não estou nem aí, tenho outras prioridades e a vida é curta.”

Autor: Pedro Sette-Câmara

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