O custo do "politicamente correto"

A essa altura do campeonato não é mais preciso dizer que a expressão “politicamente correto” representa a síntese do totalitarismo, por pressupor que se uma opinião não é “politicamente correta” então ela é um mal à sociedade.

Mas o maior mal causado pelo clima “politicamente correto” é a sensação pretendida de uma acusação permanente, como se coubesse a você, o politicamente incorreto, o ônus da prova, a necessidade de demonstrar que não, você é politicamente incorreto mas é limpinho. Essa sensação gera uma imensa perda de tempo e um dilema: ou você fica criando estratégias para driblar a “correção política”, ou passa a defecar para quem a preza. E algumas pessoas “politicamente corretas” podem até ser bem normais. Além disso, ostentar o desprezo por uma parte da humanidade, mesmo uma parte idiota, não é algo moralmente louvável.

As coisas ficam mais perigosas quando chegam ao terreno jurídico. Por exemplo: aparentemente agora é moda entre os defensores de Israel (eu defendo a existência do Estado de Israel) dizer que qualquer posição anti-sionista é anti-semita. O problema é que o anti-semitismo é crime. Deveríamos pôr na cadeia as pessoas que se opõem às ações militares de Israel – mesmo que elas usem argumentos tortos ou falsos? Eu não sei se os argumentos são tortos ou falsos, não examinei a questão. Mas é claro e evidente que não, não deveríamos pôr na cadeia alguém que defendesse uma certa posição a respeito do conflito em Gaza.

A histeria pública associada às leis brasileiras (contrárias à liberdade de expressão – que, segundo o modelo americano, deveria ter seu limite na incitação à violência imediata) tem pelo menos esse efeito nocivo: se é crime achar qualquer coisa, se é crime correr o risco de estar errado diante dos “politicamente corretos”, então o melhor pode ser não ter opinião nenhuma sobre diversos assuntos. Todos temos prioridades na vida e não vamos comprar todas as brigas. Nada mais normal do que ver um monte de gente histérica discutindo e simplesmente preferir ir embora, ainda mais quando uma intromissão pode levantar uma suspeita de crime.

Sei que pessoas com banner “I’m a proud friend of Israel” em seus blogs podem achar que estou defendendo o Hamas e que sou anti-semita. Se acharem isso, estarão tatuando a própria imbecilidade em suas testas, e demonstrarão que são capazes do mesmo duplipensar típico da esquerda. Porque os orgulhosos amigos de Israel também costumam ser contra cotas raciais em universidades, e percebem que existe uma ampla diferença entre ser contra cotas e ser racista. E olha que – novamente – eu defendo a existência do Estado de Israel. Só parece que, às vezes, sugerir que qualquer questão possa ser um tiquinho mais complexa já levanta suspeitas de crime de pensamento.

A propósito: criminalizar uma opinião não lhe acrescenta nenhuma credibilidade. Diria que sucede exatamente o contrário.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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