O ateu com dúvidas

Nestes dias tenho lembrado de uma conversa que tive em julho. Um sujeito ateu, que eu tinha acabado de conhecer, perguntou-me se eu tinha dúvidas sobre a minha fé católica e respondi que sim. Para dizer ao leitor coisas que eu nem disse a ele, às vezes penso que ficaria muito feliz se Jesus Cristo descesse do céu e me respondesse algumas perguntas. Não que eu acredite que Jesus Cristo me deva isso sob algum aspecto. Só estou dizendo que não atrapalharia em nada, muito pelo contrário.

Posso até me orgulhar, se é que isso faz sentido, de uma certa normalidade. Apesar da firmeza das proposições, da força do sentimento de certeza, da clareza de uma percepção, não se vive assim o tempo todo. Ao menos eu não vivo. Só não vou me orgulhar mesmo porque essa na verdade não é uma experiência peculiar minha: parece que todo mundo vive assim, alternando entre a certeza e a dúvida a respeito de uma pá de coisas, ora agindo com tranqüilidade, ora apostando. Nada de mais.

Mas revivendo aquela conversa percebi que, ao confessar-me um católico com dúvidas, apenas ganhei diante de meu interlocutor o status de não-freak, como se ele pensasse assim: “Ele é católico mas é limpinho.” Não passei a ser, diante dele, normal “como todo mundo”, mas alguém que é normal apesar de católico.

O detalhe, obviamente, é que se a “normalidade” é definida pela freqüência de um estado de dúvida (e não foi Freud quem disse que o normal era ser ao menos um pouco neurótico?), o ateu também deveria conhecer esse estado, e questionar seu próprio ateísmo. Não é só o religioso que “deveria” perguntar “e se…?”, mas também o ateu. “E se existir Deus e eu me ferrar?” Até porque existe um número assustador de pessoas inteligentes que acreditam e acreditaram em Deus e negar sua existência é equivalente a achar-se mais brilhante do que elas.

Portanto, a conseqüência de um ateu achar que um religioso sem dúvidas é anormal é que, no mínimo, anormal é ele, ateu. Também. No máximo, para manter a terminologia freudiana, é um psicótico narcisista.

E da próxima vez, já sei: vou perguntar ao ateu se ele também tem dúvidas.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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