Censura x custo social

De uma vez por todas: censura é algo que, em sentido estrito, só pode ser praticado pelo governo. Ausência de comentários em blog não é censura. Eu impedir você de falar o que quiser dentro da minha casa não é censura. E por isso não existe nenhuma incoerência entre defender a liberdade de expressão — isto é, que não haja penalização legal para nenhum discurso (inclusive os absurdos, repugnantes e ofensivos), excetuando a incitação a atos específicos e presentes de violência — e não querer conviver com todo tipo de expressão. Até porque o direito de uma pessoa dizer algo certamente não corresponde ao dever de outra pessoa lhe dar ouvidos — nem mesmo em um espaço público.

De tudo isso que falei é possível tirar uma conseqüência simples: a idéia de que a pior censura é aquela interna, insidiosa etc é uma bela bobagem. Prefiro mil vezes que apenas façam cara feia para as minhas opiniões a ser tratado como um cubano dissidente. Prefiro mil vezes não conseguir arrumar um emprego onde quero por não partilhar das opiniões de um meio social a ser jogado na cadeia por não partilhar essas opiniões. Nenhuma organização privada tem qualquer vaga e remota obrigação de ser representativa de “todas” as nuances de uma sociedade e se o meu estilo de vida me incompatibiliza com uma determinada organização, azar o meu. Talvez minhas idéias e atitudes sejam melhores ou até infinitamente melhores, mas isso não me dá nem o direito de arbitrar essa questão nem o direito de impor o resultado da minha arbitragem aos que me rejeitam.

Em suma, censura não é custo social. Numa sociedade liberal, basta que não haja risco à sua vida ou propriedade por defender opiniões impopulares. Afinal, não se pode tirar do outro a liberdade de rejeitar você por quaisquer razões — é o direito de livre associação. Querer mais do que isso é totalitarismo.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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