Há hífens entre os neurônios dos lingüistas

Gastei um bom tempo nos últimos dias lendo sobre o acordo ortográfico. Por razões profissionais, preciso não só conhecê-lo como aplicá-lo. É sim o caso de tapar o nariz. Prevejo que um dia, já velho, decidirei escrever usando apenas a antiga ortografia etimológica, aquela que o Fernando Pessoa queria preservar. Ele estava coberto de razão. A ortografia etimológica nos recordava o tempo todo que não estamos em pleno ar, soltos no espaço, que a língua pode ser viva mas não tem experiências fora do corpo como nas “projeções astrais”, nem gosta de ser abduzida por extraterrestres – como agora. Viemos do grego e do latim; já sinto ganas de escrever physica, o que já remete à physis, a natureza; “física” parece apenas uma matéria da escola em que gente feia fala de fios sem massa e superfícies sem atrito.

Agora, o que mais admira e consterna nesse grave – olha o latim; “grave” no sentido de “tumular” – momento da nação é a qualidade dos argumentos usados em favor do acordo orthographico. Deparei-me com a justificativa de que o hífen deve morrer “quando se perdeu, em certa medida, a noção de composição”.

Vou confessar que nunca jamais soube usar o hífen e simplesmente consultei o dicionário em caso de dúvidas. Devo dizer, aliás, que consulto o Houaiss online várias vezes ao dia, todos os dias, o que não só recomendo como até considero prova de amor à língua. Por isso, não estou preocupado tanto em aprender a regra quanto em saber que o Houaiss está atualizado. A regra não vai fazer sentido mesmo, não se deve perder tempo. Se uma regra lingüística faz sentido, ela não precisa ser ratificada por governos. Ninguém legisla que o plural em português é formado primariamente pelo acréscimo de um “s” final.

E é aqui que retomo o mio da feada. Como se pode dizer que a noção de composição foi perdida em uma palavra? Certamente os lingüistas que elaboraram as regras jamais perderam a noção de que pára-quedas (ou paraquedas) e girassol são palavras compostas. A noção de composição nunca parece ter sido critério nem para hifenizar nem para não hifenizar. Além disso, eu não perdi a noção de composição. Tenho licença para hifenizar o que eu quiser? Devo passar a escrever “gira-sol”?

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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