Mensagem de Natal

Nunca realizamos subjetivamente a experiência do bode expiatório, já perceberam? Todos o fazem, exceto nós mesmos, exceto cada um de nós, o que é impressionante. Eis um fenômeno universal e ninguém o pratica. Todos os nossos inimigos são genuínos, certificados, merecem nosso desafeto, mas os inimigos de outras pessoas são bodes expiatórios. Portanto, há algo errado com nossa atitude social, com nossas relações humanas: o fato de nunca observarmos isso em nós mesmos, considerando que essa é uma preocupação fundamentalmente cristã.

René Girard. Lições de René Girard na UniverCidade. Rio de Janeiro: UniverCidade Editora, 2001.

No início de 2008, razões diversas fizeram com que meu interesse pela teoria mimética de René Girard aumentasse muitíssimo, o que se tornou óbvio para os que lêem o que escrevo. Passei a me interessar pela origem de certas atitudes, por aquilo que se chama de “formação de duplos”, isto é, o fato de que duas partes opostas que disputem o mesmo objeto tornam-se idênticas em suas atitudes. Veja o debate entre a direita e a esquerda nos blogs brasileiros: disputando o prestígio e a autoridade, uma acusa a outra de ser desonesta intelectualmente, e freqüentemente as duas partes têm razão; as duas aceitam o verossímil (segundo sua própria visão de mundo) como verdadeiro se é conveniente. O resultado dessa disputa, como de todas as disputas entre duplos, é um rastro de destruição da linguagem. Barack Obama vira marionete de bilionários iranianos; o Papa, culpado pela epidemia de AIDS na África.

O que surpreende, porém, é que a suposta solução para esse problema não passa pelo desprezo búdico das agitações mundanas e pela rejeição de todas as posições disponíveis no “mercado” ideológico. Eu mesmo continuo defendendo o Papa e o liberalismo (isto é, o estado de direito, a igualdade jurídica, um governo pequeno, limitado e sério); gostaria de acreditar que defendo essas coisas por achá-las verdadeiras e não apenas para vencer meus adversários – os quais são meus irmãos na medida em que somos humanos. Aliás, é o próprio Girard quem distingue entre “irmãos rivais” e “irmãos de verdade” em seu ensaio sobre o mito de Édipo e a história bíblica de José (em Oedipus Unbound). Isso coloca duas dimensões na atitude que eu gostaria de ter: agir por amor à verdade, agir por amor ao irmão. O que significa, se ainda não ficou claro, que tanto o esnobismo pseudo-chique quanto o tom autoritário não valem.

O nascimento de Cristo fortalece essa consciência, já presente no judaísmo. Se damos graças no dia de hoje, é simplesmente porque podemos saber que a violência e a alienação das vítimas não triunfará. Vamos nos esforçar para não fazer vítimas; para não sacrificar nem a verdade e nem os outros na hora de afirmar nossos pensamentos. A teoria mimética vai nos dizer que passamos da mediação interna, em que duas pessoas disputam um mesmo objeto imediatamente presente e que não pode ser satisfatoriamente compartilhado, para a mediação externa, em que buscamos um modelo transcendente, “fora” de nosso universo. Isso vale para Dom Quixote, que imitava Amadis de Gaula; e vale para o cristão, que busca imitar Cristo.

Em vez de buscar adotar um desejo de extinguir os desejos, o cristianismo vem propor que, primeiro, admitamos a natureza mimética do desejo. Não queremos prestígio por ele ser bom; queremos para afirmar nosso ser e nossa identidade às custas de alguém que invejamos sem querer admitir. Segundo, que simplesmente deixemos de tratar o próximo simultaneamente como modelo (aquele que queremos imitar, aquele que possui o objeto que desejamos) e obstáculo (aquele que nos impede de possuir o objeto) e passemos a tratá-lo “em Cristo”, isto é, tendo Cristo como modelo para os nossos desejos. Ter Cristo como modelo significa sacrificar a si e não aos demais; e isso acontece tanto no mero plano da atividade intelectual – o que é a honestidade senão o desejo de sacrificar as próprias opiniões e submeter-se às evidências? – como no plano da convivência – a caridade também é atribuir ao outro a mesma boa vontade que se acredita possuir.

Se há algo que eu desejo nesse Natal, é adotar essa postura.

Feliz Natal a todos.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com