A marca dos idiotas

The Leaders of the Crowd
W. B. Yeats

They must to keep their certainty accuse
All that are different of a base intent;
Pull down established honour; hawk for news
Whatever their loose fantasy invent
And murmur it with bated breath, as though
The abounding gutter had been Helicon
Or calumny a song. How can they know
Truth flourishes where the student’s lamp has shone,
And there alone, that have no Solitude?
So the crowd come they care not what may come.
They have loud music, hope every day renewed
And heartier loves; that lamp is from the tomb.

O “consenso cientifíco” não é a ciência. Ciência é um ato da inteligência, um ato que só pode se dar na alma individual. Por isso mesmo é que para quase todos os efeitos práticos a ciência e o consenso científico são a mesma coisa. Seria inviável esperar que todo mundo verificasse todos os assuntos, e todo mundo prefere a especialização do trabalho. Enquanto eu penso a respeito da teoria mimética, alguém se dá ao trabalho de entender a natureza do câncer. Ainda assim, o consenso científico não é a ciência, e se os dois se confundissem nem sequer poderia haver progresso científico, já que este depende de alguém que rompa com o consenso. Isso me parece um tanto óbvio. Se não é, bem, pense que um dia a inexistência de micróbios foi consenso.

Do mesmo modo, atacar o prestígio dos cientistas incessantemente não contribui para a famosa ciência, ainda que possa mexer no famoso consenso e ponha em evidência a atividade científica enquanto profissão. Ataques ao prestígio são eminentemente retóricos, e digo isso sem os desmerecer; nada se produz nesse mundo sem retórica, e até Aristóteles já afirmou que a verdade precisava da retórica. Mas também não são científicos, e matar o cientista / filósofo / escritor de prestígio de plantão não vai aumentar o conhecimento de ninguém sobre nenhum assunto. Exceto, talvez, o do médico legista e de seus estagiários.

A marca dos idiotas é exatamente essa: ficam discutindo-se uns aos outros, tornando-se cada vez mais semelhantes a si mesmos, enquanto fingem de maneiras por vezes até sofisticadas que disputam um objeto – como a ciência ou a verdade. Crêem ser sinceros na sua busca, mas apenas participal de uma frenética competição de esnobismo e pseudo-narcisismo.

Algumas pessoas podem achar que se trata de um derrotismo, ou de um cinismo, ou de um epicurismo, mas a verdade é que, enquanto você não conseguir perder muito do seu desejo de ver seu “amor à verdade” reconhecido por alguém, você não vai entender nada, e vai continuar sendo um idiota, alguém que só repete a si mesmo sem perceber.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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