Nossa tradição palavrosa

Semana passada, pelo vão central do prédio onde moro, ecoava um rádio com uma música de Caetano Veloso. Há anos eu não ouvia. E só pude pensar: como é palavroso! Parecia um Odorico Paraguaçu da música popular. Alguma coisa na linhagem do hino nacional.

A gente fala de inflar as palavras, e é no mesmo sentido de inflação monetária: tem palavra demais para pouco sentido. Parece que a idéia de que escrever bem é atingir o máximo usando o mínimo nunca pegou no Brasil – princípio que também vale para letras de música. E é ele que provavelmente explica o sucesso de séries americanas entre a população mais erúdita do Brasil: elas são baseadas em wit, aquilo que nós, seguindo os franceses, um dia chamamos de “espírito”, e que consiste entre outras coisas em conseguir causar um grande efeito com poucos recursos. Mas nem é preciso buscar o “espírito” para isso; também é possível dizer apenas dizer as coisas corriqueiras diretamente, mas aqui preferimos as maneiras mais rocambolescas.

Se você assistiu a Deadwood (que hoje acho que foi a melhor série de todas), é a mesma coisa. Quase todos os personagens ficam dando voltas e mais voltas para dizer coisas simples. É um jeito de parecer importante.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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