Língua e discriminação

As pessoas que dizem que o uso da norma culta é um fator de discriminação estão absolutamente certas. Eu discrimino pessoas por seu uso da norma culta, ou melhor, por seu desprezo pelo uso dela. Por exemplo, escrever e falar em bom português – bom apenas? Que digo? Kalós kai agathós! – o tempo todo, e não apenas quando “o contexto” pede, não chega a tornar uma mulher atraente, mas o desleixo no falar e escrever pode chegar a torná-la repulsiva. A menos que você esteja no nível da Ana Beatriz Barros (ah, mas eu creio que ela escreva direitinho), cuide das vírgulas e nunca represente todas as oclusivas guturais surdas pela letra “k”.

Todos discriminamos os outros segundo os critérios que achamos mais importantes ou de que gostamos mais. Admito que, a rigor, poderíamos até escrever usando apenas o alfabeto fonético, mas eu gosto do idioma e por isso não gosto de quem não gosta dele. Além disso, ao contrário de uma roupa ou mesmo de uma tatuagem, o bom uso do idioma depende de um ato voluntário e continuado, não de um ato pontual que vai transmitir algo sobre sua identidade.

Tem gente que vai me discriminar por eu, sei lá, ser católico ou esnobar todas as cervejas populares brasileiras. Na verdade, quando alguém reclama da discriminação, só pode estar reclamando de duas coisas: ou não faz parte do grupo que o esnoba, ou queria que os seus próprios critérios é que validassem o esnobismo. “Discriminemos não A, mas B”. Por isso, mesmo que os lingüistas falem e escrevam, e que as pessoas de pendores sociológicos falem da arbitrariedade da norma culta como critério de discriminação, só posso dizer que é hora de acordar para o reles fato de que todos os critérios de discriminação pessoal são mais ou menos arbitrários, e que eles definem as companhias que você espera partilhar. Vós que transformais os métodos da lingüística em princípios doutrinais podeis ficar com a Secretaria das Culturas e tudo aquilo que aguarda aval antropológico; eu fico com Machado de Assis, com Fernando Pessoa.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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