Falta Girard

Senhores, isto é um preconceito romântico perfeitamente explicitado (e, claro, fui eu que negritei o trecho mais relevante):

G1: Qual pode ser o impacto dessa multiplicação de “ficções pessoais” na sociedade?

PAULA: Talvez uma certa fragilidade, que decorre desse tipo de eu construído na exposição e na visibilidade, e que portanto precisa desesperadamente do olhar alheio para confirmar a sua existência. Junto com todos os alívios e as possibilidades que se abrem nessa libertação, aparece a falta de sentido, a sensação de “vazio”. Um vácuo deixado por esse espaço interior, por aquela “interioridade psicológica” que definia o que era cada sujeito e constituía a sua essência, o eixo a partir do qual se construía a subjetividade de cada um, e que agora se está deslocando em direção aos sinais emitidos pela superfície visível do corpo, da pele e das telas. Hoje parece que só é o que se vê. As diferenças entre essência e aparência se embaçaram em meio a tanto espetáculo, encenação e miragens imagéticas: não é por acaso que constantemente nos é dito que devemos cuidar da nossa imagem, como se fosse uma marca que cada um de nós deve gerenciar da forma mais eficaz possível. É preciso aparecer para ser alguém.

Vamos explicar. Acho que o leitor habitual deste blog vai apreciar a crítica – até um tanto conservadora – da famosa “sociedade do espetáculo”. Mas a minha crítica será bem outra: essa sociedade sempre existiu, porque sempre estamos querendo projetar uma imagem e sempre agimos em função da imagem que temos de nós mesmos, e isso também acontece na intimidade. O sucesso de um site como o Orkut se deve simplesmente à possibilidade de as massas fabricarem seu duplo angélico digital.

O preconceito romântico está na crença em uma espécie de “eu substancial” que exista por si, fora da interação. Nem mesmo na teologia católica isso seria possível, já que o “eu” só existe por causa de Deus e, em última instância, diante de Deus.

Portanto, é isso aí: convença-se da relatividade do seu ser e simplesmente escolha quem vai ser seu espectador e como você vai agradá-lo. É só isso que fazemos, o tempo todo.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

Uma consideração sobre “Falta Girard”

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