Crônicas da Província do Brasil

Ontem à noite fui ver o Quadro Cervantes, conjunto brasileiro de música antiga, no Centro Cultural da Justiça Eleitoral aqui no Rio. Será que eu preferia pagar um ingresso para assisti-los numa sala privada? Claro. Mas talvez essa oportunidade custe a surgir. Deixemos pois essa questão. Não tinha idéia nem de que existia um Centro Cultural da Justiça Eleitoral. Entrando no prédio, logo fiquei com a impressão de que estava no Supremo Tribunal Federal, que as grandes questões jurídicas do Brasil eram resolvidas ali. Talvez no passado; hoje, certamente não. Mas é um prédio muito bonito, que está sendo restaurado.

Subindo as escadas para o local do concerto, descubro que ele acontece numa sala de audiências, exatamente como a desta foto, só que com a pintura das paredes toda descascada. Um lado da sala tem TVs de plasma enfileiradas; placas mostram elas são os restos de alguma exposição. Do outro lado, urnas. Isso mesmo, urnas. A sala tinha janelas imensas que davam para a rua; essas ficam fechadas, porque mesmo assim o barulho já estava prejudicando a audição. Outras janelas davam para o vão do prédio e para outra sala em estado igualmente decrépito. A acústica era tão ruim que mesmo com um espaço pequeno e 30 pessoas era preciso usar microfones. O resultado é que você ouvia um conjunto à sua frente e tinha a sensação de que havia um CD daquela apresentação sendo tocado logo atrás.

Imaginem a cena. Um excelente grupo de música antiga, com aqueles instrumentos medievais, na sala de audiência de um tribunal, com restos de eleições e exposições jogados nos cantos, num prédio que só não parecia abandonado porque estava em obras. Parecia que o mundo tinha acabado e que aquela poderia ser a última vez que se ouviria Machaut.

É por isso que há anos eu digo: o realismo fantástico é uma bobagem, porque basta simplesmente descrever a realidade latino-americana para ver que ela já é surreal e absurda. E esse absurdo vem da falta de senso histórico. O abandono daquele prédio mostra o desprezo pelo passado e ecoa no presente. Parece, na verdade, que aqui o mundo nunca acaba de acabar.

O que, é claro, é desmentido por indivíduos que buscam fazer o bem –fazer bem aquilo que é bom – sem se deixar abater pelo ambiente, como os membros do Quadro Cervantes.

Amor concedeu-me um prêmio (Antonio da Silva Leite)

Lundú (Anônimo)

Now Is the Month of May (Thomas Morley)

Autor: Pedro Sette-Câmara

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