Jabor capricha no hate speech

Arnaldo Jabor nunca me pareceu very bright, e sempre me pareceu oprimido pelo número de caracteres que precisa preencher toda semana para o jornal. Há um tempo, até o defendi, porque apesar de tudo nunca pensei que ele pudesse escrever tamanhas barbaridades. É hora de rever essa posição. Diante de sua coluna de hoje, só posso perguntar:

1. Isso é sério mesmo?

2. Alguém do jornal leu isso antes de publicar? Ninguém pediu para o Jabor se conter só um pouquinho?

Vamos a alguns melhores momentos da cousa em si.

Obama é o novo. Obama é o negro sem rancor, o negro pós-moderno, que passou por Malcolm X, pelo Luther King e que atingiu uma espécie de síntese de virtudes políticas que almejamos: tolerância, a ecologia, a inteligência contra a mentira, é antiguerra, pela superação do bipartidarismo numa busca de “entente cordiale”, contra os “lobbies”, contra a tirania do petróleo, contra o efeito estufa. E não me venham os fascistinhas chamá-lo de “esquerdinha sem programa”…

Obama parece pairar “acima” da política, com um “honesto” messianismo, pois seu programa é quase abstrato. E não faz mal, pois, como dizia Valery: “Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?” Ele dá aos brancos que o apóiam a oportunidade de se absolverem por séculos de discriminação racial. Ele é sexy, um JFK negro, ele é a retomada do presidente que transa, sua mulher tem corpaço, bumbum. Ele diz: “Eu não falo o que vocês querem ouvir; eu falo o que vocês precisam saber!” Doce mentira: ele fala o que todos querem ouvir sim – a magia da mudança, a esperança não se sabe bem de que, alguma coisa pela qual valha a pena viver.

Obama é uma utopia crível, num tempo de tanto horror.

Obama é Deus, é o Flamengo, é tudo que tem na letra de You’re the Top, e lendo isso eu só consigo me lembrar de um amigo (que se achava) comunista da escola que numa daquelas belas e tediosas manhãs por um momento fez a mim e aos meus amigos parar de discutir a supremacia de Geddy Lee sobre Chris Squire e uma possível lei universal da obrigatoriedade dos vestidos floridos para meninas ao declarar enrubescido: “Não sou gay, mas para o Fidel eu dava!”

Ora, pois.

Vamos a outro grande momento:

Se Obama ganhar, teremos a felicidade de não ver mais as famílias gordinhas dos boçais da direita, os psicopatas sorridentes de dogmas, seus hambúrgueres malditos, seus churrascos nos jardins e nas cadeiras elétricas, não veremos mais os meninos mortos voltando do Iraque como sanduíches embrulhados para a viagem, a crueldade em nome da bondade, a fé contra a razão, a santidade da burrice, tudo sob um inferno de cânticos evangélicos e música country. McCain é Nashville; Obama é jazz.

Os eleitores de McCain são paranóicos e precisam de inimigos para viver. Valorizam o martírio, como os boçais radicais do Islã. Em geral, dividem-se em reprimidos sexuais ou sadomasoquistas. Eles odeiam a diferença: os negros, os estranhos, os livres. É patético ver o McCain fingindo de republicano light, de democrata sem ginga. Quando ele declarou: “Eu não sou o Bush!” – mentiu. Ele é o Bush sim; eles são produzidos em série no útero puritano da América, forjados na velha religião do século 17, falando nas “forças do mal”, que são eles mesmos, sem espelho.

Eu poderia comentar, mas para quê? Em 2003 (agradeço a Diogo Costa por me lembrar), Alexandre Soares Silva já resumiu tudo: o anti-americanismo é o anti-semitismo contemporâneo. Tudo bem, McCain e Obama são americanos, eu sei: mas troque “americanismo” por “republicanismo” no sentido de “adesão ao Partido Republicano americano” e vai dar na mesma. Por isso, a pergunta: Arnaldo Jabor acha que o Grande Líder Barack Obama irá exterminar as crianças gordinhas, ou apenas colocá-las em campos de trabalhos forçados e reeducação sexual, de onde sairão magrinhas e estatólatras (digamos) como ele?

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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