Obama é o Flamengo

Por que alguém que mora e vive no Brasil pode depositar tanta, digamos, energia emocional num candidato, e ainda mais num candidato à presidência americana? Fico pensando em como isso pode afetar sua vida particular, e o número dessas pessoas parece bastante diminuto. Para nós que no máximo visitamos os EUA a única coisa que mudou foram as medidas de segurança nos aeroportos, e parece razoável dizer que após o 11 de setembro qualquer presidente as teria instituído.

Aliás, mesmo descendo ao mais imediato dos níveis, a diferença que a maior parte das pessoas sente em suas vidas privadas com a eleição de um prefeito é mínima. Pensando na prefeitura do Rio, onde morei quase sempre, só consegui lembrar de duas coisas: Cesar Maia encheu a cidade de placas, o que foi muito bom, e fez o tal do Rio Cidade, justamente enquanto eu não morava aqui, zerando seu placar positivo com o abominável obelisco de Ipanema. Nem as placas nem o obelisco foram promessas de campanha. Fora isso, as coisas continuaram idênticas. Consigo me lembrar de outras coisas feitas por políticos, mas elas não vieram do, com o perdão do jargão, âmbito municipal.

Isso é que me faz crer que, desde o ponto de vista do cidadão privado, a escolha de um candidato é semelhante à escolha de um time. Que diferença faz o Flamengo ganhar ou perder? Só uma diferença emocional. Você resolveu agregar algo à sua identidade e por isso quer que esse algo seja sempre vencedor sob algum aspecto – se não ganhar no placar, vai jogar melhor, ter mais títulos, sei lá. O impacto emocional que uma vitória ou derrota tem é infinitamente maior do que o impacto externo, e a mesma coisa vale para a vitória nas eleições. Cá no Rio, sei que a minha repulsa por Paes conseguia superar até a minha repulsa pelo ex-seqüestrador, mas, francamente, não consigo imaginar uma única diferença que um ou outro fosse fazer em minha vida concreta.

No entanto, consigo imaginar e enxergar perfeitamente que um determinado clima de opinião, ainda que infinitamente menos tangível que um candidato, é mais influente e importante para a minha vida prática. Nele se dá a vida política realmente importante, e uma ligação emocional muito forte com um candidato qualquer é até um impedimento para a participação nessa vida.

Se Barack Obama perder as eleições, teremos o maior anticlímax da história humana. Se vencer, a maior festa. Daqui, da minha búdica indiferença, apenas repetirei com o Puck de Sonho de uma noite de verão: “Lord, what fools these mortals be!”

Autor: Pedro Sette-Câmara

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