De como a política corrompe a religião, e mais

No domingo, O Globo me trouxe a notícia não apenas da existência de um movimento católico chamado Apostolado Opus Christi como também de seu apoio a Eduardo Paes. Eduardo Paes? O candidato de Sergio Cabral e Jandira Feghali? Desse espanto nasceu uma intensa busca no Google que durou diversos minutos e me levou ao blog de João Carlos Rocha, líder, chefe e guru do Opus Christi. Em seu convite para o evento que marcaria o apoio oficial à candidatura de Paes veio a seguinte pérola:

O Momento é de grande aflição para a Sociedade Católica, uma vez que políticos CONTRÁRIOS aos princípios de DEUS e de NOSSA SENHORA estão confundindo a população de BEM, ORDEIRA e HONESTA.

Primeiro, não custa observar a mesma velha lenga-lenga: olha só, estamos à beira do abismo, vamos virar Sodoma e Gomorra, por isso vote em mim. Os políticos adoram guerras para aumentar seu poder: guerras materiais ou “espirituais”.

Mas bem. O que chama mesmo a atenção é que agora o candidato de Sergio Cabral e Jandira Feghali é que vá proteger a “Sociedade Católica” dos “princípios de DEUS e de NOSSA SENHORA” (essas letras maiúsculas realmente fazem lembrar o clássico personagem moralista das novelas nordestinas da Globo, brandindo contra o mundo com sua bengala).

Ok, o apoio de Jandira Feghali, a abortista totalitária que mandou invadir a Arquidiocese do Rio, só veio na última hora. Mas o governador Sergio Cabral sempre foi defensor inequívoco do aborto – com preferência para favelados. Também participa oficialmente da Parada Gay. Se o Apostolado Opus Christi acha que a sociedade está correndo tanto perigo assim por causa dos “políticos CONTRÁRIOS aos princípios de DEUS”, provavelmente acha que o risco de não encontrar nenhuma boquinha caso Paes não seja eleito é infinitamente mais abominável.

Logo abaixo, João Carlos Rocha também nos comunica sua felicidade com outra coisa:

Fiquei feliz pelo nosso Presidente Nacional, Deputado Rodrigo Maia ter autorizado a criação do Orgão dos Democratas Católicos.

Então você, católico preocupado e aguerrido, brandindo o cajado dos profetas, agradece publicamente a seu presidente, aquele sujeito que pediu em caráter de urgência que o congresso aprovasse a criminalização da “homofobia” – isto é, dizer alguma coisa que desagrade a um homossexual politizado – , lei que pode vir a proibir você mesmo de vir a angariar votos denunciando a sodomia e a gomorria generalizadas? Isso já nem é mais oportunismo, é pura estupidez. Ou então, sei lá, talvez João Carlos Rocha ache que os princípios católicos consistem na mistura de homossexualismo com censura à liberdade de expressão.

Ah, claro, você pode dizer que eu não falei das opiniões de Eduardo Paes. Mas quais são elas mesmo? Diga-se em defesa do ex-seqüestrador que ao menos ele nunca quis posar de algo que não era.

Infelizmente, como católico, sou obrigado a admitir que basta saber que existe um movimento católico apoiando qualquer político para concluir que nele é que não se deve votar mesmo. Tirando o importante e urgente lobby anti-aborto, toda vez que esses movimentos ou a CNBB resolvem se meter em política…

Os católicos que se ressentem da separação entre Igreja e Estado podem mirar-se neste exemplo. Costumo dizer que eu sou a favor da união entre Igreja e Estado desde que Abraão seja o primeiro ministro, Moisés o presidente, Salomão presidente do STF, David o ministro das forças armadas e, é claro, São Francisco de Assis o ministro do meio-ambiente. Enquanto eu tiver que me contentar com o pessoal do Apostolado Opus Christi, prefiro diminuir o número de oportunidades de depredamento da religião. E você já imaginou a CNBB com poder de polícia? Eu, filotradicionalista religioso e politicamente liberal, iria para a cadeia. Por isso não escondo que advogo essa separação em causa própria.

Em tempo: os leitores habituais já sabem o que eu acho. Acho que o mundo não vai acabar por causa da Parada Gay e acho que negar o direito de propriedade a homossexuais é um crime em tudo equivalente ao simples roubo. Também sou a favor da liberdade de expressão e por isso sou contra o projeto totalitário da criminalização da “homofobia”. Os gays fazem sua parada, quem quiser fala mal, e ninguém vai para a cadeia.

Agora, não é um consolo, mas não é só no terreno de política x religião que vemos o oportunismo esmagar qualquer cheiro de princípio. Na semana passada – quase meus olhos caíram das órbitas quando li – vi que Vladimir Palmeira, um dos presos políticos trocados pelo embaixador seqüestrado por Gabeira, dava seu apoio a Eduardo Paes. Mesmo que seja uma questão de partido, caramba. Ou talvez eu é que seja ingênuo: na cabeça dessas pessoas o partido ainda vem com P maiúsculo, como se tivesse sido grafado por um João Carlos Rocha, além de ser “o” Partido.

Também não julguei que fosse viver para ver a Marta Suplicy – a Marta Suplicy! – atacar seu adversário na campanha para a prefeitura de SP por supostamente (bem, é o que todos dizem naquela cidade) ser gay. Se o mundo mantiver sua coerência atual e me preservar de futuras surpresas, logo o Apostolado Opus Christi também vai apoiá-la, essa grande defensora da moral e dos bons costumes.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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