Sick with Desire

Romola Garai em King Lear (2007)

Pois é. Ela já esteve aqui. Mas hoje eu soube que o DVD com a versão cinematográfica da montagem de King Lear por Trevor Nunn será lançado em 6 de outubro. Trevor Nunn fez uma das minhas adaptações favoritas para o cinema de Shakespeare, Twelfth Night. King Lear é talvez minha peça favorita. E Romola Garai tem sido a minha atriz favorita.

Não consigo pensar em cena mais comovente do que a cena 7 do quarto ato da peça, em que Lear e Cordelia se reencontram. Ele preferira as bajulações das duas outras filhas, a vaidade à razão, e acabou louco e indesejado. Quando, logo na primeira cena, Cordelia promete amar seu pai “de acordo com os laços”, isto é, como uma filha, ela também diz que seu amor é maior que sua língua. A atitude das irmãs Regan e Goneril pode ser entendida rosenstockianamente: suas palavras abrem uma “taça de tempo” entre a promessa e o cumprimento que nunca fica cheia, porque faltam os atos correspondentes. A “taça” de Cordelia – sua promessa de amor filial – fica cheia quando o pai, num momento de lucidez, reconhece-a e admite que, como a deserdou, ela teria motivos para fazer-lhe tomar veneno naquele momento, e ele o tomaria. Mas ela simplesmente diz: “Motivo nenhum, motivo nenhum.” Não se trata só de abdicar de um “direito” de vingança, mas de escancarar a natureza do amor filial: não importa o que aconteça; a pessoa de quem se recebeu a vida não merece uma fidelidade sem fim? E vejam que aí ainda há um certo eco de Édipo. Não se mata o pai, nem por retribuição, mesmo que ele esteja louco.

Como eu quero ver Romola Garai abraçar Ian McKellen e dizer: “No cause, no cause!”

Autor: Pedro Sette-Câmara

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