Bruno Tolentino, poeta público

Publicado no Diário do Comércio em 15 de agosto.

Há poemas que impressionam pelo que têm de estranho, de distante, e que nos obrigam a ir até eles. Normalmente, amamos estes poemas antes mesmo de entendê-los bem. Mas há outros, não menos valiosos, que vêm ao nosso encontro, nos pegam pelo ouvido e, com um verso simples, conseguem inserir uma nova nuance naquilo que está sendo dito. A mente gosta dessas surpresas, que também fazem parte daquilo que podemos chamar de “efeito poético”.

Mas esses dois tipos de poema, o “difícil” e o “fácil”, precisam referir-se a um terreno comum, a um significado que o leitor também poderia apreender sozinho – o que difere bastante de uma estratégia comum da poesia contemporânea, que é a busca por escrever algo tão particular a determinado ponto de vista que a maior parte das obras acaba variando entre o absolutamente desinteressante e o absolutamente ininteligível. A sensação é a que temos diante de um grupo de amigos que estudaram na mesma escola, mas não na nossa escola: para eles, uma história pode ser engraçadíssima, mas para nós aquilo não significa nada.

Na contramão desse desejo de “dizer olha eu aqui, sou único, me amem por favor” – citando o verso de Paulo Henriques Britto em “Biodiversidade” (Macau. Companhia das Letras: São Paulo, 2004) – o poeta Bruno Tolentino, falecido em junho de 2007, preferiu sempre dialogar com o leitor. Como os últimos livros que lançou, O mundo como Idéia (São Paulo: Globo, 2002) e A imitação do amanhecer (idem, 2006), podem ser considerados uma longa discussão de um tema um tanto sutil – a dificuldade de lidar com a efemeridade da beleza – , é natural que seus leitores estejam hoje mais envolvidos com a parte “difícil” de sua obra. Todavia, a parte “fácil” tem muito a oferecer, seja por ensinar como se transfigura a linguagem mais trivial, seja por buscar sentidos em acontecimentos da memória coletiva brasileira.
Por exemplo, o soneto que abre a segunda parte de A balada do cárcere (Rio de Janeiro: Topbooks, 1997), ainda que fale nos “porões da alma” e nas “dores transfiguradas” de um assassino chamado Numeropata, termina cheio de familiaridades: “Meu Numeropata disse / toda espécie de sandice, // algumas logo adotadas, / musicadas pelas minhas: / mexerico entre vizinhas…” É justamente a banalíssima expressão “mexerico entre vizinhas” que, neste último verso, expõe não só o tipo de intimidade, como também a afinidade entre personagem e narrador.

(Se um mestrando em Letras estiver lendo esse artigo, por favor não escreva uma tese chamada Mexerico entre vizinhas: a construção da identidade de narrador e personagem em “A balada do cárcere”. Aposto que Bruno Tolentino puxaria seu pé à noite, porque devolver propositalmente uma expressão resgatada da banalidade a um contexto absolutamente previsível é o contrário da poesia.)

Para ficar entre os mexericos de vizinhas, talvez nada supere no quesito “facilidade” a divertidíssima seqüência de sonetos “Os Santos da Luz da Penha”, ao final de Os deuses de hoje (Rio de Janeiro: Record, 1995), que conta a história da família Santos da Luz: as irmãs Laura e Isabel, mais Edgard e Zacarias. Isabel, casada com Zacarias, “o corno titular da Circular da Penha”, morre no parto de Batista, que é a cara de Edgar. O poema só funciona plenamente se você perceber que ele deve ser lido imitando uma fofoqueira. Repare como o nome seguido de dois apostos – “Fulana, aquela isso, aquela aquilo” – remete a essa voz tipificada: “Laura Luz, pecadora arrependida, / cunhada de Isabel, era uma chata; / resolvera fazer uma visita / incaridosa e casta a essa cunhada / que além de ainda viver a mesma vida / que ela, Laura, levara, a vira-lata / a chamava de hipócrita bendita!” Logo vemos que o adjetivo “arrependida” é um tanto desmentido por “incaridosa”; esse desmentido já joga suspeitas sobre o “casta”, e é a personagem Isabel que, reunindo vários significados em apenas duas palavras, mata o assunto chamando Laura Luz de “hipócrita bendita”. Fica, aliás, a lembrança de que a malícia pode ser uma forma rudimentar de poesia…

Outro belo exemplo de “poema fácil”, também de Os deuses de hoje, é a bela seqüência em homenagem a José Guilherme Merquior. O décimo primeiro soneto diz, com ironia e lamentação: “Chorai, ó patrióticas torneiras / de asneiras, soluçai como se a vida / do país, ou de alguém, valesse ainda / a pena de chorar sinceramente / a morte do ex-futuro presidente / de um terreno baldio!” Não é um imperativo corretamente empregado que vai destruir a coloquialidade; aqui, nesse terreno baldio, ainda não desconhecemos a língua o suficiente para estranhá-lo – ou não ao menos aqueles que lemos poesias.

Mas há uma referência implícita nessa seqüência e em outras que talvez não seja tão fácil. Certamente não é uma referência essencial para a apreciação, mas que a aumenta consideravelmente: essas crônicas em verso, misturando personagens reais e considerações filosóficas, situações históricas e discussões nacionalistas, parecem vir de William Butler Yeats, especialmente de “In Memory of Major Robert Gregory” (de The Wild Swans at Coole). É claro que seria possível remontá-las aos primeiros cantos dos Lusíadas, em que uma longa crônica dá conta da história de Portugal, mas nem Tolentino nem Yeats tiveram essa pretensão totalizante.

Entretanto, retomando o que foi dito no começo, a diferença destes poemas-crônicas para os que viriam com a mesma designação a partir dos anos 1970 está na relevância dos temas: os mais contemporâneos fazem um convite a seu universo privado, e os mais distantes ainda referiam eventos da memória potencialmente comum, ou que, no caso de “Os Santos da Luz da Penha”, apontam para questões perenes, como o desejo de controlar a vida. Esses poemas, hoje ainda entre os menos comentados, mas mais próximos da linguagem e do modo de falar correntes, podem vir a dar a Bruno Tolentino o título de “poeta público” do fim do século XX – nem que seja porque ninguém mais quis tentar sê-lo.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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