O Dr. House dos roteiros, RIP

Ainda estou em choque por ter aberto o jornal hoje e lido o obituário de Leopoldo Serran. Li no Globo, mas ponho o link para a Folha porque só ali achei um obituário aberto e “linkável”.

Conheci Leopoldo Serran em 1996, e conheci-o pessoalmente antes de conhecer sua fama. Trabalhamos juntos durante algumas das semanas mais divertidas da minha vida. Muita gente achava que ele tinha personalidade “difícil” (por isso é que eu fui escolhido para trabalhar com ele), mas eu o achava formidável, engraçadíssimo. Leopoldo Serran não era para os fracos – e muito menos para os doentes que não têm senso de humor.

Volta e meia ele me dava de presente um papelzinho em que tinha copiado um trecho de Nelson Rodrigues, normalmente em torno do tema “jovens: envelheçam!” E todos os dias dizia algo absolutamente escandaloso e hilariante. Um de seus melhores momentos, que não me canso de repetir, foi quando perguntei-lhe o que tinha achado de Central do Brasil.

– Aquilo lá é o Bambi iraniano.

– Leopoldo, acho que a parte do “iraniano” eu entendo, mas por que Bambi?

– Matam a mãe do viadinho logo no começo do filme…

Mas isso, é claro, já foi bem depois de quando trabalhamos, entre o fim de 1996 e o começo de 1997. Daquela época, sempre recordo o dia em que ele recitou um dos melhores poemas de Yeats, e que deixo aqui como uma pequena homenagem.

An Irish Airman Foresees His Death
W. B. Yeats

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public man, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com