Abismos

Nunca deixo de me impressionar, e muito, com as pessoas que se dizem impressionadas com a durabilidade da Igreja Católica e de certas posições suas, e que exigem que ela mude, como se fosse absurdo que algo não mudasse. Que acham que a Igreja é reacionária, com todo o sentido de “reação” que a palavra tem.

Não parece difícil observar que a maneira como vemos as coisas sofre diversas pressões. Pressões emocionais, culturais, o que seja, que nos levam a prestar mais atenção em alguns aspectos da realidade do que outros. No entanto, uma dessas pressões é escolhida, e vem daquilo que concluímos ser verdadeiro. Eu acho verdadeiro que existam verdades absolutas – uma meia dúzia delas – e elas informam minha experiência. Por exemplo, o princípio de identidade me leva a perceber a estabilidade da natureza humana, e a percepção de que o intelecto é uma faculdade individual me faz ver que a ordem do conhecer é distinta das demais. Distinta da ordem da persuasão. Isto é, posso perceber uma verdade sem ser capaz de persuadir os outros, e posso persuadi-los e ser persuadido com mentiras.

Quando alguém exige mudanças, parece crer que o único princípio estável é o da mutação permanente, exceto deste mesmo princípio. A partir disso tento imaginar como é a alma de alguém que não percebe as verdades e os bens estáveis. Será que ela está mentindo para si? Será que ela percebe que, se não há verdades objetivas que podem ser percebidas por qualquer pessoa, a única coisa que resta como parâmetro são nossos próprios desejos? E, se ela percebe isso, será que percebe as conseqüências absurdas, como a impossibilidade de justificar a superioridade de algum desejo?

De um lado, uma das minhas percepções mais fundamentais é de que as coisas são inevitavelmente de um jeito e não de outro, e não há muito que se possa fazer a respeito. Não é tanto uma percepção sublime e romântica do tipo “Percebes o Criador, ó mundo?” (como na “Ode à alegria” de Schiller, musicada por Beethoven), mas algo do tipo “Quem é que você está querendo enganar achando que as coisas são do jeito que você quer? Ah, você mesmo.”

Para citar outro poema, lembro da pedra que Yeats colocou no meio de um rio, “perturbando a corrente viva” (“Easter, 1916”). A idéia no poema é bem distinta da minha, mas a imagem me serve igualmente. Certamente não sou honesto o tempo todo, nem mesmo comigo, fiz muitas coisas de que me arrependo e até me desespero um pouco por saber que insistirei nos erros. Mas as coisas são de um jeito, e não de outro; não me resta muito além de me conformar com isso. A palavra “conformar”, porém, tem uma conotação negativa forte, e não gostaria que ela fosse entendida assim. Pensem em conformar no sentido de “assumir a forma”.

Não é que eu esteja dizendo que as coisas sejam intrinsecamente más e o teste definitivo de macheza esteja na sua capacidade de aceitar isso. Ao contrário, me parece que as coisas são intrinsecamente boas e eu nunca consegui me identificar com visões de mundo niilistas. Por outro lado, as coisas boas não são as coisas que eu desejo… A macheza é necessária para abandonar as idéias idiotas de que gosto, e há muitas idéias que eu não quero nem ouvir ser chamadas de idiotas – prefiro deixar tudo como está. Um outro lado sente um certo temor. Parece que estou adiando mais uma vez o encontro com as coisas como são.

Mas tudo isso se baseia na percepção de que as coisas são de um jeito e não de outro. Posso compartilhar essa percepção até com um ateu – basta que ele perceba que existe verdade independente da vontade do sujeito. Ele poderá entender que alguém pode estar errado na defesa continuada de algo, mas não discordará do pressuposto de que existem verdades estáveis (mesmo que poucas), nem acreditará que o mundo é uma maçaroca insignificante de matéria coberta de palavras e desejos, “uma história de som e fúria”.

Mas e essas pessoas que querem que tudo mude? O que elas sentem? O que elas pensam? Não me parece que a resposta seja tão simples.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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