Notas sobre Batman

Como estou viajando e tão cedo não poderei rever O cavaleiro das trevas para clarear as idéias, vou deixar aqui apenas algumas notas.

1. Não me parece que o filme seja “filosófico” no mesmo sentido em que The Coast of Utopia, de Tom Stoppard, é uma peça “filosófica”, isto é, um texto em que os personagens falam coisas filosóficas e mostram ter dilemas filosóficos.

2. O filme é “girardiano” não só porque a cena final mostra o nascimento dos mitos – a resolução da crise sacrificial (o desejo coletivo de violência e compensação) pelo método do bode expiatório – mas porque, entre outros, toda sua trama gira em torno da rivalidade mimética entre o Batman e o Coringa. Esses dois personagens não são duplos em sentido girardiano por serem dois freaks que andam fantasiados, mas por desejarem o mesmo objeto, “o coração e a alma de Gotham”, que passa a ser simbolizado por Harvey Dent. O Batman deseja que os cidadãos de Gotham sejam capazes de combater o crime através do “processo da lei”, do sistema policial e judiciário, e o Coringa deseja que eles aceitem a “lei da selva” no lugar do estado de direito. Isso fica bem evidente quando ele queima o dinheiro e diz que quer “passar uma mensagem”, isto é, ele não quer algo para si, quer afetar os outros, afirmando sua supremacia, que é ele – e não Batman ou Dent (símbolo do estado de direito) – que “manda mais”.

Prefiro falar nessa oposição entre “lei da selva” e “estado de direito” em vez de “caos” e “ordem” por clareza. Na lei da selva, existe a obrigação da vingança. Se as pessoas nos barcos tivessem explodido umas às outras, isso teria gerado inúmeras vinganças, que gerariam outras e mais outras e mais outras (vejam como a história do mordomo simboliza isso: queima-se toda a floresta para pegar o bandido, e esse custo não será alto demais?). Para chegar ao estado de direito, o cidadão que sofreu o mal precisa abdicar de sua vingança e não querer sujar suas próprias mãos de sangue. Isso revela a conexão entre esse estado de direito e o Batman, que também não quer sujar as próprias mãos.

3. O outro aspecto “girardiano” do filme está presente nos outros filmes de super-heróis. Nesse momento eu devo dizer que nunca li as revistas, só conheço os filmes dos anos 1990 para cá. Mas bem. Esse aspecto é o uso do “duplo angélico”. Todo herói tem uma personalidade relativamente (ênfase: relativamente) banal e indistinta, em que ele é maximamente afetado pelo ambiente e pelos outros, e outra personalidade perfeita, em que ele afeta a todos sem ser afetado – o duplo angélico ou personalidade de herói. Mesmo o milionário Bruce Wayne, pelo filme, depende muito mais das pessoas que trabalham consigo do que de seus próprios esforços enquanto empreendedor. O drama da maior parte dos filmes de super-herói parece depender dessa – com o perdão da palavra – dicotomia, mostrando como o duplo angélico afeta certas ações da versão banal e vice-versa.

A genialidade de O cavaleiro das trevas está em conseguir misturar todos esses dramas – a criação do bode expiatório, a disputa mimética, o duplo angélico x a banalidade – em uma única narrativa coerente. E quando eu digo “genialidade”, estou sendo bastante preciso. Quanto ao Heath Ledger, sei lá. Mas os roteiristas Christopher e Jonathan Nolan merecem um Oscar.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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