Melanina e mérito

Vejo pelas ruas a capa da Rolling Stone brasileira com Barack Obama e não deixo de pensar numa coisa: não lembro de negros americanos percebidos como conservadores (falta-me tempo e paciência para discutir a identidade conservadora agora) terem sido igualmente celebrados. Clarence Thomas, nada menos que juiz da Suprema Corte. Colin Powell, Secretário de Estado de 2001 a 2005. E, reunindo as duas virtudes politicamente corretas de ser mulher e negra, Condoleezza Rice, atual Secretária de Estado. Além de seu “conservadorismo”, os três estão ligados aos Bush: daí que não produzam ondas de otimismo.

Não vou negar que a idéia de um presidente americano negro é simpática, e gente que eu admiro considera Obama o mal menor. Mas o que me interessa aqui é mostrar que, melanina por melanina, os três conservadores têm muito mais mérito, e provavalmente mais mérito do que todos os políticos brasileiros juntos (admitindo, é claro, que Clarence Thomas não é um político). O único mérito de Barack Obama é ser o primeiro negro viável políticamente que a esquerda conseguiu produzir. As mesmas pessoas que são capazes de ver Condoleezza Rice tocando piano clássico em público (afinal, boa parte do “jornalismo” consiste em ridicularizar os famosos) dirão que ela deve ser avaliada como todos, por seus méritos, por suas idéias e atos, não por seu coeficiente de melanina. O que é justo. Assim como é justo não dar crédito a Barack Obama só por seu coeficiente – aliás mais baixo – de melanina.

Se a idéia de um presidente negro é simpática, também deveria ser (e é) a idéia de um juiz negro da Suprema Corte, de dois Secretários de Estado negros. Se essas pessoas não têm seus méritos reconhecidos e não geram otimismo, é só porque a divisão ideológica é muito mais forte do que a divisão racial. Os idiotas que se sentem audaciosos por ter esperança não tiveram sua vaidade afagada, porque o que importa não é mostrar-se do lado dos negros no poder, mas de quem quer que confirme para você a sua própria bondade. Isso não é debate. É sedução.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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