O texto mais imbecil jamais publicado sobre um filme

Saindo da sessão de O cavaleiro das trevas, vulgo “filme do Batman”, meus amigos mencionaram a crítica publicada nesta sexta no Globo e eu não pude acreditar.

Melhores momentos:

É difícil saber se o Coringa votaria em Barack Obama. Mas conservador como a aristocracia de Gotham, potencial eleitora de John McCain, ele não é.

Que “aristocracia de Gotham”? Ele viu o filme? Ou será que está dizendo que Bruce Wayne votaria em McCain?

No início, a sugestão de uma possível afinidade entre o banditismo e a “audácia da esperança”. Depois, a oposição entre o bandido e o conservadorismo dos potenciais eleitores de McCain. Não é difícil escolher lados. Difícil é realmente equalizar as coisas assim. E eu pensava que minha antipatia a Obama era forte.

Por isso, neste ano de eleição presidencial nos EUA, em que os americanos se dividem entre a opção democrata e a manutenção do poder republicano, cada risada do vilão talha “The Dark Knight” (no original) como alegoria política. Aliás, a alegoria mais perturbadora de 2008, à altura de um filme de Costa-Gavras.

Alegoria do quê? Parece até que o autor da resenha acha que Coringa é Obama e, como Obama pode ser eleito, o Coringa será o novo líder do mundo livre. Se o texto não fosse tão confuso, seria o texto mais virulentamente direitista que já li.

E como o fato de o Coringa não ser “conservador” faz com que suas risadas sejam “alegorias políticas”?

Na verdade, tanto o Coringa quanto o Batman são conservadores. As “ideologias” dos personagens são nuances de conservadorismo. O Coringa acha que a natureza humana é má; ele só quer empurrá-la mais ainda para o mal. O Batman acha a mesma coisa, mas gostaria que o sistema policial e jurídico fosse suficiente para combater o mal; ele se ressente de ser necessário, em vez de querer ficar aumentando o Estado. Discutir mais nesse momento é estragar o filme para quem ainda não viu.

O filme expõe o risco que a anarquia, encarnada no Coringa, traz ao Leviatã decadente que Gotham virou, refém de tradições. A chegada de um inimigo cuja ambição é o caos causa uma instabilidade moral que os EUA só sentiram no 11 de Setembro de 2001, à mercê do medo.

“Refém de tradições” – que tradições? O filme começa justamente com um promotor que representa o renascimento moral de Gotham. Eu não diria que o filme trata de tradições, mas, se for preciso usar essa idéia, bem, é uma nova tradição que está surgindo na cidade.

Mais ainda, nas poucas cenas em que o filme transfere o foco da atenção para a população americana, ela não demonstra nenhuma “instabilidade moral” – exatamente o contrário.

É o caso de perguntar simplesmente: o autor da resenha viu o filme que resenhou? Porque isso está parecendo o velho dilema: “tenho que produzir mil caracteres sobre o filme, mas só tenho o release“.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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