Clodovil para presidente já

Quando Clodovil foi eleito deputado, muita gente, “às direitas e às esquerdas” (como se diz em Portugal), disse que tinhamos chegado ao fundo do poço, que o povo brasileiro merecia ser varrido da face da terra por um novo dilúvio. (Claro que quem deseja um novo dilúvio purificador sempre acha que merece estar na arca de Noé, mas isso é outra história.)

Na época fiquei calado porque 1. na verdade não ligo muito para isso, 2. não consigo imaginar de que modo Clodovil seria tão pior assim, e 3. Clodovil sempre teve fama de conservador, admitindo que suas preferências sexuais eram apenas suas preferências e não uma ideologia ou uma cultura. Entre um deputado gay confortável o suficiente com sua opção (ou, na expressão comum, “que se garante”) para não querer prender quem manifestar desaprovação por ela e um deputado heterossexual que graciosamente se curva a um lobby histérico e totalitário, não tenho dúvida de quem é o melhor, nem de quem é mais homem.

Mas o que importa é a compreensão que Clodovil mostra da importância da liberdade. Não se pode criminalizar opiniões e antipatias, nem se pode interferir no uso da propriedade alheia. A discriminação decorre do direito de livre associação. Eu poderia empregar apenas pessoas com cabelo verde e piercing no nariz (daqueles que fazem a pessoa parecer um touro ou que parecem uma melequinha pequena e brilhante) se quisesse, e sem explicar por quê. Eu mesmo arcaria com os custos das minhas preferências.

(Aliás, uma sugestão. Quem gosta de lutar contra discriminações precisa derrubar o tabu definitivo: a feiúra. Duas mulheres concorrem para um cargo. Cabe a um homem escolher. Por que não criar a delegacia das mocréias, para que elas possam dizer que foram preteridas por sua baranguice e exigir compensações? Afinal, a sociedade poderia compensá-las por aquilo que a natureza não lhes proporcionou. Se um gay se sente discriminado porque a natureza não lhe proporcionou o desejo por gente do outro sexo e ele quer ostentar isso na forma de uma identidade, o raciocínio é idêntico. Podia também haver a parada do orgulho feio. Os feios têm de parar de ter vergonha. Nossa sociedade tem de incluir os feios. Por que só gente bonita em anúncios? É hora de as deficientes estéticas assumirem seu lugar entre as angels da Victoria’s Secret. Não gostam de separar absolutamente sexo de gênero? Pois então, a beleza também está nos olhos do observador. Vamos lá: como dizia Lúcifer Aleister Crowley, “todo mundo é uma estrela”.)

Só hoje eu fico sabendo da proposta de Clodovil para reduzir em 50% o número de deputados federais.

Ele lembra que, hoje, cerca de 20% dos deputados estão em campanha e que a Câmara funciona perfeitamente com menos da metade da atual composição, se houver realmente interesse de trabalhar.

Um deputado que propõe abertamente uma redução do Estado. Um deputado que não está questionando apenas a maneira como o Leviatã deve nadar, mas também seu peso. Quero mudar meu título para São Paulo para poder votar nele. Político por político, podem ficar com o Gabeira e sua mania de tasers. Meu candidato para qualquer cargo é o Clodovil.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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