De novo, para que estudar?

Leio o texto de Joel Pinheiro no blog da Dicta & Contradicta (aliás, em segundo lugar de vendas de não-ficção na Livraria Cultura!) sobre os problemas da universidade, que vem logo depois de um post que indica um texto de William Deresiewicz, ex-professor de Yale, criticando a educação das universidades da Ivy League.

Mas o que me chama a atenção é o seguinte: há anos eu teria lido algo como “a busca desinteressada pela verdade” e essas palavras teriam recebido meu total apoio. Eu logo reclamaria da instrumentalização do conhecimento, blá, blá, blá. Hoje não consigo mais pensar assim… baseado em minha própria experiência. E, se você pensar bem, a própria expressão “busca desinteressada” parece um oxímoro. Se não há interesse, por que há busca?

É justamente aí que paro. Eu tenho interesse; aliás, interesses. O interesse é uma motivação. Essa motivação preexistiu a todas as minhas “buscas pela verdade”. Sempre que estudo, estudo atrás de uma resposta específica, e percebo, ao mesmo tempo, que só consigo encontrar a resposta de que preciso quando abandono alguma idéia idiota da qual gosto bastante.

Gosto da idéia de que uma universidade seria composta de uma gigantesca biblioteca, cursos livres, tutores que já saibam quais são as idéias que costumam tapar esta ou aquela verdade, e a obrigação – uma contrapartida – de produzir algum texto explicando o que você queria saber e onde você chegou. A idéia de que a universidade deveria ser uma máquina de produção de elites (em qualquer sentido) acaba pressupondo que a busca intelectual vai ter que acontecer em outro lugar, ou apesar da máquina.

Se a educação formal é baseada em responder a perguntas que não foram feitas (na nunca exaurida frase de Neil Postman), então ela está me atrapalhando, porque eu estou fazendo as minhas perguntas e quero as minhas respostas. Essas perguntas, aliás, têm origens diversas. Não vêm só de coisas que eu penso, mas também de coisas que me acontece, ou de desejos que surgem. Para dizer a verdade, não apenas eu não sei de onde virão meus próximos interesses, como sei que posso passar meses sem ter interesse nenhum. Se você não quer saber nada, para que estudar?

Disso não decorre uma apologia da solidão. Mas depois eu explico o porquê.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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