Sobre a KGB do esoterismo

Dom Lourenço Fleichman, em comentário de 13 de junho, explica o essencial sobre a possível influência de Rama Coomaraswamy sobre a Sociedade de São Pio X e o movimento tradicionalista católico. Eu mesmo pensava em escrever algo, mas ele, que tem fontes muito melhores do que as minhas, felizmente adiantou-se. Falta só fazer alguns acréscimos.

1. Se os membros da tariqat schuoniana acham perfeitamente normal ter um discurso duplo, por que acreditar em qualquer coisa que eles digam? Saber ou dizer a verdade não confere a ninguém autoridade, muito menos autoridade espiritual. Afinal, o diabo conhece todas as verdades.

2. Uma das ilusões mais comuns entre “defensores da verdade” é a idéia de que a verdade não pode servir ao mal. Mas, infelizmente, a pura conversibilidade entre o bom, o uno e o verdadeiro só se dá num plano metafísico. A acusação berrada serve ao escândalo e à desagregação. Se ela é verdadeira, deve ser tratada com mais discrição do que se for falsa.

3. Assim, um método simples para avaliar a credibilidade que se deve dar a uma afirmação como “a tariqat de Schuon manipula o tradicionalismo católico” é: quais os frutos que ela dará? Quem se beneficia da crença numa tese que dificilmente pode ser provada? A resposta é simples. A própria tariqat e todos os inimigos da Igreja Católica são os que mais se beneficiam das divisões entre os católicos.

Uma afirmação de “manipulação” diz respeito somente às vaidades. Você pode querer a verdade apenas por uma questão de segurança psicológica, para sentir-se no caminho certo e poder esfregar a “sã doutrina” na cara de quem você não gosta. Você quer ser católico tradicionalista para diferenciar-se da massa ignara que toca violão – e eu estou dizendo isso para admitir que já apreciei muito essa compensação psicológica. Assim, se você descobre que essas lindas verdades a que você se apega foram, em última instância, postas na sua cabeça por um mau-caráter de turbante, lá se vai a ilusão de autonomia e diferenciação que era a argamassa da sua psique.

Por isso, se eu fosse um católico “lefebvrista”, simplesmente perguntaria a mim mesmo: faz alguma diferença para mim saber se aquilo em que acredito veio de X ou Y? Ou será que no fundo tudo o que eu queria era alguma garantia psicológica de não estar sendo feito de idiota?

Agora, discutir qual “lado” é mais suscetível a uma ou outra influência faz tanto sentido quanto discutir se o Flamengo é melhor que o Fluminense (ou seja, nenhum). O que se quer dizer com isso? Que todas as pessoas que têm determinada idéia estão imunizadas contra certos tipos de influência? Ora, saber uma verdade não deixa você melhor. A piedade não é ideológica. Estamos todos sujeitos à idiotice o tempo todo. Não há solução para isso. A “sã doutrina” não é uma solução para isso. A única solução é estar atento e questionar o tempo inteiro não só as idéias, mas suas motivações para acreditar nelas.

A propósito: hoje eu me designo como um católico romano “filotradicionalista”. Vou à missa nova onde dá para ir, assisto à missa antiga permitida e ficaria felicíssimo com a reconciliação dos cristãos. Estou dizendo isso porque acho que a credibilidade de alguém para discutir religião publicamente depende da sua sinceridade a respeito de sua posição. Sinto horror da idéia de a religião separar amigos e impedir relacionamentos pessoais: tenho amigos muçulmanos, ateus, católicos tradicionalistas “lefebvristas”, ortodoxos, protestantes, judeus e acho que é justamente o fato de sermos inteiramente abertos a respeito de nossa opção religiosa que permite a amizade. Sabemos que não estamos tentando manipular uns aos outros e já conhecemos nossos pontos de discordância.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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