Filosofia e sociologia nas escolas

1. Não estou mais na escola, então, francamente, apenas dou graças a Deus por não ter de assistir a essas aulas.

2. Vocês já sabem que por mim o Ministério da Educação nem existiria. Não apenas sou contra ele em princípio como ainda acho até bonitinho que as pessoas não percebam que, na lógica do estado intervencionista, qualquer Ministério fica à mercê do lobby mais poderoso. Também é bonitinho que facilmente acusem empresários de usar o Estado a seu favor, acusação aliás freqüentemente verdadeira; mas e os beneficiários dessa geração de empregos, serão eles todos inocentes? Seja um contrato de milhões ou um emprego na casa das centenas ou milhar, o princípio é o mesmo.

E um esclarecimento: não sou a favor do ensino domiciliar porque acho ruim o currículo do Ministério da Educação. Nem sou contra o Ministério da Educação porque ele fala coisa que eu não gosto. Gosto de acreditar que eu escreveria contra o Ministério mesmo que ele propagasse as idéias que me agradam. Não sou contra este currículo oficial. Sou contra qualquer currículo oficial. Contra qualquer educação estatal, sobretudo a obrigatória.

3. Chega a ser comovente perceber como as pessoas esquecem a sua experiência escolar. No dia em que eu soube que nunca precisaria ter contato com a química orgânica, senti um alívio como jamais experimentei novamente. Esqueçamos os objetivos nominais da escola. A principal experiência que ela proporciona é a sensação de um nonsense institucional: você tem que aprender coisas pelas quais não tem o menor interesse, ouvir as respostas de perguntas que não fez nem faria, ditas por alguém que quase sempre também demonstra que preferia estar na praia, e o objetivo supremo disso é passar num exame para um curso universitário que você não sabe se quer fazer. Depois as pessoas ficam ressentidas, achando que essa parte da vida delas é uma mentira, e… elas têm toda razão. É um desperdício de tempo e dinheiro.

Se você não se lembra, também, permita-me recordar que a experiência escolar mais comum é não conseguir sequer ouvir o que o professor está dizendo, estudar na véspera e esquecer rigorosamente tudo no exato momento em que a prova termina.

O maior efeito negativo disso é “jogar a criança fora com a água do banho”: traumatizado pela escola, você pensa que toda a literatura é um lixo insuportável, toda a história é uma farsa ridícula, toda matemática é uma abstração inconseqüente e, no meu caso, que toda química é simplesmente algo de que você jamais quer ouvir falar novamente. Porque não. E não.

O mais comum é que você preserve os seus interesses intelectuais apesar da escola, não por causa dela. No meu caso particular, sei que devo muito a algumas professoras de literatura, mas são exceções tão fortes que suas aulas constituem as únicas memórias vívidas que ainda guardo de situações de ensino. De resto, só tenho lembranças de momentos passados com meus amigos. E é por causa deles, dos nossos pares, que recordamos o passado com algum carinho.

Incluir filosofia e sociologia no currículo só terá um único efeito: cansar um pouco mais a paciência dos alunos, ou, na maior parte dos casos, dar-lhes a oportunidade de tirar algumas notas boas fáceis, porque, enfim, você já viu uma faculdade de filosofia e sabe quem é que vai dar aula. Essas aulas podem até virar doutrinação, ou nascer como doutrinação, mas os alunos serão tão desinteressados por elas como são por todas as demais. É mais fácil estuprar uma pessoa do que obrigá-la a assimilar idéias (ao menos dispondo só de uma sala de aula cheia de bagunceiros) que ela nem consegue escutar.

Agora, pelo amor de Deus, parem de tratar os alunos como se fossem uma tábula rasa e passiva que olha reverencialmente para o professor. Se você, direitista, foi espertinho e está aí hoje todo pimpão, por que os outros também não podem ser, como dizem, “críticos”?

Autor: Pedro Sette-Câmara

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