Corra que o aborto vem aí

Adaptando uma das conversas que nós, do OrdemLivre.org, tivemos com o Tom Palmer, a primeira coisa que pensei ao ler o Sergio falar em “abortofobia” foi no seguinte diálogo:

– Ei, você. Venha cá.

O sujeito dá um passo à frente.

– Você tem medo de aborto?

E o sujeito, escondendo o rosto com as mãos, responde:

– Sim… Sim!

– Seu idiota! E você nem é um bebê para ter medo de aborto!

Originalmente, aliás, brincávamos com a palavra “homofobia”.

Sei bem que não parece fazer muito sentido falar num “em si” das palavras, cujos sentidos parecem ser inevitavelmente multiplicados pelo uso, mas como a palavra “fobia” sozinha permanece com o sentido de “medo” e não de “repulsa” – por exemplo, eu detesto feijão, mas não me sinto exatamente assustado por ele; você diria que eu sou feijãofóbico? – , logo vejo um abuso no termo. Tudo bem, talvez a minha implicância tenha a mesma motivação que a minha aversão ao acordo ortográfico: o amor à língua. Afinal, quem ama quer que o objeto permaneça eternamente o mesmo, e as mulheres que fazem de tudo para conservar o mesmo corpo da juventude estão aí atestando a existência dessa expectativa. Porém, digo em meu favor que se a premissa de que o uso é que determina o sentido das palavras (ou, vejam quão chique e estruturalista, da “arbitrariedade do signo”), em vez de “abortofóbico” prefiro ser chamado de Luís Vaz de Camões.

Também tenho aversão pela fórmula “expressar sua sexualidade”. Primeiro, porque ela é ambígua. Refere-se a falar ou fazer? O obelisco de Ipanema para mim era só um obelisco, mas bem pode ser uma expressão de sexualidade. Assim como o Sauron, no filme do Senhor dos Anéis, é uma desdendata flamejante. Segundo, porque ela parece remeter à linguagem que distingue gênero de sexo. É possível distinguir os dois? Claro. Mas supor que não existe nenhuma relação entre um papel masculino ou feminino e o sexo masculino ou feminino é usar um modelo mecânico para entender o ser humano. Cobrindo cada V8 pode haver uma carroceria cor-de-rosa. O que é estranho, porque são as pessoas científicas que nem acreditam em alma (ou certamente não em alma imortal) que gostam de enfatizar que tal ou qual reação ou predisposição emocional é resultado da dosagem de alguma substância, de algo que acontece lá na máquina.

Mas a “expressão da sexualidade” precisa ser vista dentro do quadro das diversas racionalizações que tentam contornar um dos grandes tabus contemporâneos, isto é, que cópulas têm conseqüências. Tudo bem, a parada gay pode ser uma “expressão da sexualidade”, assim como Sauron e o obelisco de Ipanema, mas existe uma única “expressão da sexualidade” que contém a peculiaridade de ser responsável pela perpetuação da espécie. Eu sei que seria mais gostosinho pensar que você deu origem a si mesmo e que todos os seus desejos têm uma origem espontânea, mas até os personagens do filme Satyricon e dos clipes do Pet Shop Boys nasceram de um homem e de uma mulher. E não parece muito difícil distinguir entre finalidade subjetiva e finalidade objetiva. Acho que só algumas mulheres, em algumas idades, realmente fazem sexo para procriar, com essa motivação. De resto, só há, como repetia Dom Lourenço de Almeida Prado, “sexo recreativo”. O que não muda a finalidade objetiva do ato sexual. Eu achava que essa era uma noção fácil de apreender, mas dou um exemplo para ajudar. Se você puser açúcar em algo, algo não vai ficar salgado, mesmo que você tenha tido essa intenção. Mas, sei lá, achei que fossem as pessoas de jaleco branco que insistissem nesse tipo de raciocínio.

O fato mesmo de existir “precaução” no ato sexual, isto é, contraceptivos, mostra o desejo de contrariar a finalidade objetiva do ato, não sua finalidade subjetiva, a qual ainda se pretende atingir. Por isso acho sempre muito engraçado quando acusam o Papa de ser responsável pelo crescimento da população: só quem nunca teve uma experiência sexual poderia achar que, naquele momento, você pararia para dizer: “Camisinha? Ah, mas o Bento XVI falou que não pode…”

Esse é o ponto em que as coisas desandam retoricamente. De um lado, eu sei, estarão as pessoas que ostentam a sua “sexualidade livre” e que tratam todos aqueles que preferem não obscurecer as conseqüências objetivas dos atos sexuais como se fossem um bando de moralistas: falsos moralistas, na melhor das hipóteses, e loucos ensandecidos, na pior, pois até acreditam nessas coisas. Do lado “moralista”, gostaria só de dizer: não estou dizendo que sou santo, só que não acho legal matar bebês. O que, bem, não é algo que eu chegue a considerar um mérito. Mas os mais exaltados retoricamente nesse meu campo moralista também têm muita facilidade para tratar todos os defensores do aborto e da “expressão da sexualidade” como se fossem reencarnações de Calígula, quando eles, talvez para sua vergonha, nem são tão pervertidos assim. Os nossos moralistas querem vê-los humilhados e ofendidos, flagelados até confessar o erro de suas doutrinas, até expurgar o mal de seus corações. As pessoas que “expressam sua sexualidade” querem obscurecer um fato da natureza para aliviar a culpa universal, da qual os “moralistas” são mais culpados por fingir que não a carregam; os “moralistas” querem desumanizar seus adversários por apostar que, tendo a idéia correta, também terão a conduta correta, isto é, a inocência absoluta. E agora cabe a mim evitar a tentação de uma digressão sobre essa simetria maligna.

Depois desse prelúdio, vou olhar alguns trechos do petardo do meu amigo – é irresistível, afinal, pelo texto dele eu sou “abortofóbico” – teofóbico e religiofóbico. E, como o texto foi eminentemente retórico…

Certo, essa citação passou de todos os limites. Eu vou ter que falar alguma coisa.

Venha nos salvar, Batman!

Culpar a mãe por uma gravidez indesejada, e colocá-la contra a parede sob a pretensa responsabilidade de arcar com as conseqüências de seus atos…

Peraí. A “responsabilidade de arcar com as conseqüências de seus atos” agora é “pretensa”? Ou é pretensa quando se pode dizer: “Agora, querida, com Abortex Tabajara, nós arcamos e desarcamos com as conseqüências dos seus atos para você!”

E eu achava, também, que a responsabilidade era o corolário necessário da liberdade.

Não existe atualmente qualquer necessidade do ato sexual resultar em reprodução, mesmo com a ocorrência de gravidez. Em uma sociedade moderna essa conexão é absolutamente artificial e criada de fato em maior ou menos grau justamente pelos movimentos abortofóbicos.

Não é “essa conexão” que é artificial. Artificiais são e sempre foram os meios de impedir a concepção e realizar abortos. Falo em “artificial” no sentido de “feita com arte”, isto é, não apenas natural.

Culpar a mãe por uma gravidez indesejada é como culpar a estuprada por usar roupas provocantes, é como culpar o assaltado por usar um caixa eletrônico de madrugada. É por um dedo em riste no nariz dela e pontificar “quem mandou expressar sua sexualidade?”. Poderão tais pessoas porventura terem sido imprudentes ou pouco sábias? Possivelmente. E daí? Esse linha de raciocínio que busca proteger as pessoas de si mesmas é precisamente a que leva à proibição das drogas e outros absurdos totalitários cuja maior conseqüência prática é a opressão psicológica e a restrição das liberdade individuais.

A lógica, se superarmos a analogia repugnante, é fácil de perceber: o Teofóbico (é engraçado, vamos lá) fala das conseqüências indesejadas mas até certo ponto previsíveis de certas ações. Mas depois sugere que ser contra a legalização do aborto equivale a “proteger as pessoas de si mesmas” e aqui a repugnância se soma ao erro. Porque o estupro e o roubo são atos violentos praticados por terceiros, e a relação sexual consentida não é violenta, nem conta com a participação de alguém indesejado. Querer evitar as conseqüências do sexo consentido (isto é, filhos) não pode ser comparado a evitar uma violência provocada por uma minissaia, mas por sua natureza “auto-infligida” pode ser comparado a querer evitar as conseqüências do abuso de drogas. A tecnologia ainda não permite que você recupere seus neurônios. Mas matar bebês é uma arte que a humanidade domina desde sempre. E aí vem um ponto de discordância: o neurônio é seu para matar, mas o bebê é outra pessoa. Por isso, assim como mesmo no mais liberal dos governos o drogado deveria ser responsabilizado criminalmente por aquilo que fez de mal a outros, a mulher que faz aborto também deve ser responsabilizada. Ela não é, como a estuprada e o assaltado, vítima de violência. Ela é autora de violência.

Eu sei que o Teofóbico não falou ainda da mulher que faz aborto. Adiantei o raciocínio.

…é necessário então buscar justificativas para tal impostura, a mais forte delas vindo sob a acusação de homicídio.

A criminalização do aborto consegue ser simultaneamente retrógrada, hipócrita, uma violência contra a dignidade humana, a liberdade individual, a família, o bom senso e a realidade prática.

Não é retrógrada porque a defesa jurídica dos bebês não-nascidos é mais nova historicamente do que seu desamparo. Se o negócio é retroceder, vamos logo para a Babilônia. Não é hipócrita, porque hipocrisia é fingir que a natureza, devidamente desimpedida, não toma um certo curso. Não é uma violência contra a dignidade humana, porque pagamos às novas gerações a dívida que temos com nossos pais; violência é romper essa cadeia, fingindo-se autônomo, espontâneo. Não é uma violência contra a família porque, bem, como vou explicar? “Querido, matei nosso filho para o nosso bem”? Pode ser uma violência contra o bom senso de quem, como um sacerdote de Afrodite, acha que algo deve ser sacrificado ao prazer. E pode ser uma violência contra a realidade prática para quem pensa: “nem eu quero dividir meu tempo, nem minha paciência, nem quero acabar com nenhuma espécie de privilégio ou capricho para que você tenha uma vida. Foi mal aí.”

Depois o Teofóbico escreveu um parágrafo que contém um ambicioso pronome indefinido: “tudo que se descobriu, pensou e viveu nos últimos dois séculos”. Bom, descobrir, pensar e viver são cousas diferentes. Até porque as duas primeiras fazem parte da terceira, e a primeira e a segunda têm uma relação complexa. Mas, diante daquele “tudo”, diante de um público brasileiro e diante do “pensou”, vou citar um exemplo que tem a força de uma quantidade esmagadora: o espiritismo. Sou católico e não preciso dizer o que penso dele enquanto doutrina. O espiritismo surgiu nos últimos dois séculos e é a maior força do mercado editorial brasileiro. A escritora mais vendida (isto é, influente) do Brasil é Zíbia Gasparetto, que “psicografou” uma parte de seus livros. Os espíritas são violentamente contra o aborto. Este é só um exemplo, que ressalto sobretudo porque não é “tradicional” como a Igreja Católica.

Resumindo, é muito fácil transformar as suas conversas com seus amigos e os livros que você leu em “a experiência comum da humanidade” ou “a experiência que deveria ser a experiência comum da humanidade”. E no editorial do número zero, pueril na redação mas bom na intenção, pretendíamos justamente não usar essas grandes universalizações a nosso favor, nem falar em nome delas…

Como disse o Teofóbico, “prossigamos”.

Vamos ao hipócrita. Essa é quase uma covardia. Basta analisar as estatísticas, por exemplo num país pretensamente católico como o Brasil, das pessoas que se dizem contra o aborto e da quantidade de abortos que são de fato realizados. Essa é de goleada, então não vejo motivo para insistir no ponto.

Faltou um número aí produzido por uma entidade confiável, com métodos confiáveis etc.

…a quais entidades vamos nós agora atribuir esse estado especial de existência chamado “ser humano” cuja integridade merece ser protegida?

Essa não é uma questão muito simples de se responder.

Tudo bem que você pode ter a sua certeza de que “o feto não é uma vida humana” e eu posso ter a minha, contrária; mas, se você admite que há dúvida, então o argumento final foi dado por Olavo de Carvalho no primeiro Imbecil Coletivo: se há dúvida, não faça nada, porque ninguém daria um tiro no escuro se achasse que tem 50% de chance de matar alguém. Agora, falar em “quantidade de células” e depois de “cadáver” pressupõe outra falsidade, porque aquelas células no ventre da mãe não são uma coisa morta que magicamente passa a ter vida. Vale até observar que, no século XIII, São Tomás de Aquino não dizia que era aos 40 dias que o bebê passava a ter vida, mas alma imortal. Quando a famosa ciência declarou que todos os genes já estavam presentes na concepção é que a Igreja passou a defender a vida desde esse momento. Que obscurantismo anticientífico!

Agora, para terminar, que estou cansado (e meio doente, mas logo ficarei bem), é absolutamente falsa a idéia de que cristãos sejam contra o aborto por privilegiar a alma. Não, é por privilegiar o corpo, a vida nesse planeta. Afinal, a alma é imortal e indestrutível. E, se você for católico, o Papa Bento XVI oficializou a inexistência do limbo das crianças, o que significa que todos os bebês vão para o céu. Se os católicos realmente pensassem como o Teofóbico parece crer que pensam, seriam os mais favoráveis ao aborto.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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