O sonho de Cassandra


A moça é talentosa.

Só descobri que O sonho de Cassandra estreava semana passada no Brasil por causa da entrevista de Woody Allen à Folha de São Paulo. Gostei do filme; mas também gostei de Match Point; e acho que se você não gostou desse, provavelmente não vai gostar daquele, ainda que possa não gostar de nenhum e preferir o fantástico Crimes e pecados, que foi o filme que me fez gostar de filmes, lá num tempo remoto e distante.

Os dois filmes mais recentes trazem uma questão dramatúrgica. Os dois têm “oráculos” no início que já anunciam as desgraças que virão. Em Match Point, tanto a fala inicial do protagonista (resumindo, “é melhor ter sorte do que ser bom”) como sua profissão de fé niilista no restaurante valem como prenúncio de que ele fará coisas terríveis. Em O sonho de Cassandra, o título e a cena inicial, remetendo à profetisa agourenta e desacreditada (uma verdadeira pomba-gira, aliás) que Agamêmnon trouxe para casa ao voltar da guerra de Tróia, também avisam que nada de bom irá acontecer.

Na tragédia grega, os oráculos estão implícitos. Muitas vezes, pesam sobre famílias e gerações inteiras, e não precisam ser explicitados no começo porque o público já os conhece. O espectador experiente da tragédia sabe que a palavra dos deuses será cumprida. Mesmo assim, a tragédia pretende gerar simpatia pelo protagonista humano, que ingenuamente julgava ter conseguido escapar. Daí é que surgem os elementos de terror e piedade: terror diante da implacabilidade dos desígnios dos deuses, e piedade pelo sujeito que tem algo precioso a perder com o cumprimento desses desígnios.

Como há muito tempo o deus Apolo não assusta ninguém, os personagens da tragédia grega não despertam mais terror. Mas ainda podem despertar horror pelas coisas terríveis que fazem. Para que fique claro que o terror dos deuses não tem nada a ver com o horror dos atos, basta considerar que Agamêmnon (matou a filha) e Clitemnestra (matou o marido) estão longe de ser gente boa; Édipo também não sabia o que fazia, mas vejam só o que ele fez. A corajosa Antígona, por sua vez, parece alguém que gostaríamos de ajudar – ela não fez nada horrível pelos nossos padrões, mas realmente violou a lei civil; Creonte não era um tirano caprichoso. Pelo contrário, ajudou o pai/irmão cego e sepultou o irmão. O terror divino, porém, está presente em sua história e na de todos esses personagens. Só nós é que não o sentimos.

A tragicidade em sentido estrito depende dessa implacabilidade. O Deus cristão não é implacável, por isso o cristianismo não é trágico. Para despertar terror na platéia, seria preciso apelar para algo percebido como transcendente e inelutável como as leis que regem alguma doença. Uma pessoa bem-sucedida que descobre uma doença terminal seria o mais próximo que chegaríamos de um personagem trágico com credibilidade. Mas não teríamos toda a tragicidade, porque mesmo os deuses do Olimpo costumavam apenas reagir a um mal praticado pelos mortais. Punir as gerações futuras certamente é um capricho canalha, mas ao menos alguém como Édipo poderia saber que a raiz de seus males estava no estupro homossexual praticado por seu pai, o que é um pouco melhor do que ter um câncer e isso não ter nenhuma razão ou significado aparente. O significado dos atos divinos pode ser terrível, mas ao menos existe. E é claro que um cristão adulto pode atribuir significados aos eventos da sua vida, ou pode até conhecê-los por meio da prece, mas para ele as dificuldades serão sempre provações e nunca punições.

As exceções são interessantes e provavelmente apontam algo. Entre os cristãos, muitos sentem sinceramente as próprias desgraças como punições de origem puramente externa. O raciocínio é: “fui mau, por isso estou sendo punido”. A soma tem sempre de ser zero, a “justiça”, no sentido de uma retribuição perfeita, deve existir sempre. Mas essa “justiça” não passa uma máscara de ordem para o mal e a violência, que são caóticos e aleatórios – se não fossem, você jamais descontaria inadvertidamente em alguém o mal recebido. Alguém lhe faz um mal, você quer vingança. O paciente de câncer terminal pode acreditar que a violência que é sua doença foi causada por algo que fez, e não apenas material. Creio que é essa questão que está por trás daquele adesivo que diz “reencarnação: uma questão de justiça”. Diante da impossibilidade evidente de atingir a soma zero no aqui e agora, leva-se a questão ao plano metafísico. E, ainda que Guénon seja contrário à idéia de reencarnação tal como exposta pelo espiritismo, creio que é o mesmo espírito que o anima quando diz (creio que em A crise do mundo moderno) que “as desordens parciais apenas contribuem para o equilíbrio da ordem total”. Por isso, creio que muitos cristãos não aceitam a gratuitade da misericórdia e do amor divinos porque o seu próprio desejo de vingança precisa da máscara da justiça, como se ela fosse um loop infinito de bem e mal; o caos precisa da máscara do cosmos, da ordem. Coerentes, sabem que merecem receber vinganças tanto quanto praticá-las. É o que diz Camões: “fui mau, mas fui castigado”. Junto com o desejo de mascarar a vingança como “justiça” está a relativização da liberdade individual: fui mau, mas apenas porque você foi primeiro; não fui eu que causei meus males presentes, é Deus que está me punindo. É difícil saber quem vem primeiro, mas é certo que o mal moral é, por nublar a percepção da responsabilidade, também um mal cognitivo.

Entre os gregos, talvez a exceção seja Édipo, que soube suportar os males e foi por isso favorecido pelos deuses. Após conhecer sua verdadeira identidade e arrancar os próprios olhos, sabemos que praticou apenas um mal: amaldiçoou os filhos Etéocles e Polinices, que o abandonaram. Mas essa maldição já estava prevista para os descendentes de Laio, pois o deus Apolo decidira que sua linhagem logo se encerraria, e brutalmente (sintam-se à vontade para fazer uma leitura “conservadora” e perceber que o homossexualismo não pode, por sua natureza, gerar filhos). Édipo foi premiado após a morte; sua filha Antígona também sugeria que seria, pois afirma (na peça de Sófocles) que é melhor seguir as leis eternas porque vai passar a maior parte do tempo na eternidade e não neste mundo. Assim como nas Eumênides de Ésquilo, a violência só pode ser interrompida no plano divino, e sempre como retribuição ou “justiça”. Porém, nas Eumênides, Orestes, assassino da própria mãe, diz que agiu apenas por temor de Apolo. Já Édipo e Antígona assumem plena responsabilidade por seus atos, e talvez por isso sejam “premiados” e gerem em nós mais simpatia do que quaisquer outros personagens clássicos, porque, diante da necessidade psicológica de mascarar o desejo pelo mal, assumir os próprios atos e suas conseqüências parece um ato de heroísmo.

Retornando aos “oráculos” do início dos filmes de Woody Allen, vemos que eles se voltam para a responsabilidade dos protagonistas e não para causas exteriores. Em Match Point o suspense, uma vez praticado o mal, se volta para suas conseqüências e, se há alguma mensagem, é justamente a de que não há mais deuses no Olimpo para puni-lo neste mundo pelos males praticados. O “oráculo” anuncia a ação do protagonista, mas não a reação de alguma força exterior. Apesar da forte alusão no início de O sonho de Cassandra, são os protagonistas que decidem comprar o barco, que mencionam a possível ajuda do tio (de quem o pai sente inveja), e que mostram depender da sorte – exatamente como faz o protagonista de Match Point. Quando ela não colabora, todos eles resolvem agir. No primeiro filme, não há conseqüências para o protagonista; no segundo há. Mas a própria diferença de finais reafirma que, por sua própria natureza, a sorte não pode ser implacável, assim como não pode haver mais tragédia em sentido estrito dentro do quadro ocidental atual de referências culturais.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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