O rentismo na educação, ou: o roubo estrutural

Leio no UOL uma tradução (link para assinantes) de uma matéria do International Herald Tribune sobre a estagnação da educação superior italiana e imediatamente me lembro de Jeremy Clarkson dizendo que “a Itália é parte do terceiro mundo”.

O terceiro-mundismo italiano é compartilhado, é claro, pela senil Europa e pelo claudicante Brasil. E é hora de dar um nome tão anglicizado quanto preciso à causa desse atraso: rentismo, de rent-seeking, a busca de privilégios às custas dos outros.

A matéria do IHT diz que o problema da educação italiana é que há um grupo de professores velhinhos que controla tudo. Errado. O problema da educação italiana é que o governo italiano está sentado em cima dela. Se não fossem esses velhinhos, seriam outros – talvez até piores.

Quando eu era jovem e ingênuo acreditava que o governo queria sentar sobre a educação por causa de um desejo metafísico e prometéico de entregar às gerações presentes e futuras um mundo perfeitamente planejado, e ainda hoje acredito que meia dúzia de pessoas perversas e desconhecidas realmente tenham esse propósito satânico.

Hoje que não sou mais tão jovem e já passei anos demais olhando o Leviatã de perto acredito que esses professores são apenas um bando de rentistas em pequena escala. Normalmente o termo está associado àqueles lindos negócios com o governo em que são garantidos lucros. Pois a diferença de um empresário ou financista rentista para um burocrata da educação é apenas de grau, e não de substância. O burocrata da educação se aproveita do sentimento de insegurança do povo para prometer um sistema perfeito e cria regras para perpetuar seu controle. O sistema perfeito nunca funciona mas seu salário artificialmente definido é sempre pago em dia. A mensagem é: não trabalhe, não inove, crie um grupo de pressão e garanta seu quinhão dos impostos que a população ativa paga. E, neste caso específico, ainda garanta o prestígio de educador. Ah, vão lamber sabão, seus rentistas salafrários.

Diz a matéria:

Uma conseqüência do sistema aqui é o constante êxodo dos melhores estudantes para o exterior.

Rastrear os universitários graduados que se mudam para o exterior não é exatamente uma ciência exata, mas números da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que quase 50 mil pessoas com formação superior trocaram a Itália por outros países da OCDE nos últimos dez anos.

Sucessivos governos italianos implantaram vários programas para conter a fuga de talentos, mas as propostas apresentadas não ofereciam segurança a longo prazo e no final fracassaram.

Não é que não ocorra a nenhum burocrata a idéia sumamente óbvia de simplesmente abandonar a educação – nem que seja só a educação superior. Mas é que há muitos cargos públicos relacionados a isso e não existe a menor chance de os burocratas abandonarem sua fonte de dinheiro e prestígio.

Continua a matéria:

O centro do problema, concordam os críticos, é que no mundo acadêmico, mérito e excelência ficam em segundo plano diante da promoção dos interesses da base de poder de alguém.

O que, obviamente, acontece em todos os setores estatais. Mesmo depois do concurso, para subir é preciso agradar. Os críticos sem nome da matéria parecem supor que o sistema é bom e as pessoas é que são más. É por isso que eu sempre digo: vamos fazer um Estado imenso e planejador quando Jesus onisciente for o presidente, São Miguel Arcanjo for secretário de segurança, Salomão for o ministro da justiça e São Francisco de Assis administrar o Bolsa-Família.

Se as pessoas são más, o sistema tem apenas de minimizar a maldade, e não dar-lhe amplas oportunidades. Vamos fazer um sistema em que meia dúzia de pessoas possa controlar cargos e privilégios pagos com o dinheiro alheio? Ou vamos fazer algo em que cada um paga por suas próprias escolhas?

Onde há “redistribuição” compulsória, há corrupção. Não porque uma coisa leve à outra, mas porque as duas coisas são a mesma. “Redistribuição” é corrupção porque é roubo praticado com retórica socialmente aceita. Não é possível que os frutos sejam bons, exceto em casos acidentais e excepcionais, já que é também metafisicamente impossível que tudo vá mal o tempo todo. Mas também não é possível não perceber que um sistema corrupto, em que uns têm o “direito” de decidir como usar os recursos dos outros – ou seja, têm o “direito” de roubar – não vá gerar uma casta que deseja manter esse privilégio e, dispondo da retórica da lei e da ordem, sufocar qualquer um que a ameace.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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