Meditação sobre a liberdade

Dá-me náuseas ouvir gente “conservadora” dizer que o livre mercado depende de fatores culturais e sociais. Uma coisa é dizer que primeiro foi preciso que certas condições culturais existissem para que o livre mercado fosse pensado e proposto, pois ele já existia como fato antes de ser uma teoria. Outra coisa, mui maligna, é sugerir que determinada população, neste momento, não é boa o bastante para ter liberdade de comprar e vender – e não há como não pensar que isso não é mais do que o discurso de alguém que se beneficia (ou julga beneficiar-se) da opressão popular.

Alguém disse que o patriotismo era o último refúgio dos canalhas; pois hoje parece que a defesa da “civilização” e da “ordem” é um refúgio um pouco mais distante. A civilização nada mais é do que uma decorrência de certos princípios; defender com sinceridade a civilização e esquecer os princípios é como defender a fachada de uma casa enquanto a estrutura apodrece. Defender a “civilização” arrogando-se o direito de estabelecer uma lei para si e outra lei para os demais – “eu sou bom para o livre mercado, mas aqueles bárbaros ali, eles não” – já é trair todos os princípios e contribuir para a destruição da civilização.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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