Intervencionismo e apolitéia

Toda vez que leio o nome de Carlos Alberto di Franco recordo a campanha de difamação feita contra a Opus Dei, em que algum idiota “exigia” que ele, toda vez que assinasse um artigo, acrescentasse a sua identificação de membro. Naturalmente, isso não passava de uma tentativa de desqualificar di Franco in limine, como se pertencer à Opus Dei fosse algo tão terrível quanto ter alguma doença mental, algo que devesse – ó, quanta benevolência! – ser tolerado mas não respeitado.

Isso é um sintoma daquilo que chamo de “mentalidade imperial”, comum no Brasil, que se define por não distinguir bem Estado e sociedade, Estado e política e saber distinguir muito bem “nós” e “eles”, amigos e inimigos.

O fato de haver distinção entre Igreja e Estado – e por isso, leiam bem, eu sou a favor da remoção de símbolos religiosos de quaisquer prédios públicos – não significa que a Igreja deva se abster de ter qualquer espécie de influência sobre a sociedade.

Agora, na lógica intervencionista do Estado moderno, fatiado entre grupos de interesses (ideológicos e econômicos), também não vejo por que negar a um grupo em especial – o religioso – o direito de influir tanto quanto outros. É claro que há um lobby gay, um lobby pró-aborto. Qual o problema de haver um lobby religioso? Se você disser que o problema é o Estado ficar à mercê de grupos de interesse, concordarei imediatamente. Mas não posso admitir que um grupo tenha o direito de fazer pressão e outro grupo tenha esse direito negado por uma retórica totalitária que identifica a si própria com a expressão da verdade ou de um suposto Zeitgeist. Se isso depõe contra a separação entre Igreja e Estado, então precisamos separar todos os grupos de pressão do Estado.

De mais a mais, confesso que levaria mais a sério aqueles que clamam pela separação entre Igreja e Estado se passassem a exigir a abolição dos feriados religiosos e voluntariamente fossem ao escritório durante a Semana Santa.

Não é preciso pensar muito para perceber que o problema está justamente no domínio que o Estado exerce sobre a sociedade; com tanto poder, o grupo que for mais eficiente em fazer pressão dará a impressão de estar exercendo um domínio de facto sobre o país, ainda que se deva levar em consideração o fato de grupos opostos sempre exagerarem o poder um do outro. Muitos ateus sentem-se oprimidos pela religião; muitos religiosos sentem-se oprimidos pela irreverência religiosa. E os dois grupos estão certos sob algum aspecto.

É por isso que a solução passa por uma nova compreensão da política; não creio que se trate, como dizem alguns, de buscar uma “despolitização”, pois uma pessoa despolitizada necessariamente fica à mercê dos politizados. Importa sim saber, e lembrar sempre, que a solução para o problema de as escolas ensinarem X no currículo não é obrigá-las a ensinar Y, mas retirar do governo o poder de determinar o que as escolas devem ensinar. Isto é uma concepção política, e não a ausência de política.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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