Acho que as coisas estão melhores

Um livro que perdi, uma excelente coletânea de textos sobre a história da comunicação, terminava com o registro de um interessante dialogo entre Neil Postman e Camille Paglia. Nele, Postman reclamava de Susan Sontag, que teria dito que não sabia como George Bush (pai) tinha ganhado as eleições, já que ela não conhecia ninguém que tivesse votado nele. O problema, é óbvio, é ela esquecer da existência de pessoas absolutamente diferentes, com opiniões totalmente diferentes, e sempre há esse risco em ambientes homogêneos, seja o Upper East Side de Manhattan (onde, nas imortais palavras de um amigo, “tem lugares em que não só tudo é permitido como tudo é obrigatório”) ou uma congregação religiosa conservadora.

Tenho a mesma sensação de Postman sempre que vejo alguém falando do famoso vazio deixado pelo fim das ideologias – isto é, da sensação de “e agora?” deixada pela queda do Muro de Berlim e do fim da URSS. Jamais, em toda a minha vida, mesmos nos momentos mais idiotas da minha adolescência, senti o tal do vazio deixado pelo fim das ideologias. Francamente, não estou nem aí. Se você era socialista, acha que o sonho acabou e se sente hoje oprimido pelo neoliberalismo, eu só posso dizer “então tá, valeu” e voltar a fazer o que estava fazendo. Ou melhor: ainda que eu tenha sérias reservas quanto ao fim da aposta marxista-leninista, na verdade acho que, simbolicamente, a queda do Muro e o fim da URSS são belos eventos.

O problema é, como no caso de Susan Sontag, você projetar a sua experiência pessoal para o cosmos. O fato de você sentir – e eu não duvido da sinceridade do seu sentimento nem por um segundo – o vazio deixado pelo fim das ideologias não faz dessa sensação a experiência comum da humanidade, e muito menos uma experiência obrigatória. Nada mais vulgar, aliás – vulgar sim, no pior sentido da palavra – , do que ficar se lamentando porque o resto da humanidade não partilha das suas opiniões e gostos. E, como é próprio dos socialistas, nada mais totalitário.

Mas, retomando o que eu falei antes, o totalitarismo da universalização da própria experiência não é exclusivo dos socialistas. Certamente algum leitor terá observado que a minha própria invectiva anti-socialista poderia também ser chamada totalitária, por sua generalização. O fato é que, para quem está acostumado a universalizar a própria experiência, a simples existência de pessoas inteiramente contrárias a ela parece uma terrível ameaça.

Não estou tentando fazer psicologia barata, mas tentando explicar um pouco da constante estupefação da esquerda – no sentido mais amplo possível, de membros do PSTU a simpatizantes de Hillary Clinton – com o crescimento da direita, também em sentido amplo. Por anos a esquerda acostumou-se a uma certa hegemonia e a lamentar o vazio deixado pelo fim das ideologias. Agora precisa acostumar-se com a existência de quem a conteste, e de quem a conteste integralmente, sem dar as cartas como dava antes.

É por isso que eu acho que em 2008 as coisas são melhores do que eram em 1998. Há 10 anos só havia um lado, e hoje há dois, e os dois abrigam muita variedade. Eu sei que um simpatizante do PSTU é diferente de um simpatizante do PSDB, e até as inteligências mais unicelulares da esquerda já parecem entender que existem liberais como eu, defensores em princípio de um estado mínimo, e moralistas que não hesitariam em usar a máquina estatal para defender os bons costumes. Se você acredita que a cultura tem uma certa preeminência, não tem como deixar de observar que as coisas vêm lentamente melhorando, e essa melhora não parece que vai diminuir – ainda mais porque, ao contrário da esquerda, a direita gosta de se vangloriar de ter sucesso pelo esforço pessoal, sem reclamar da falta de subsídios do governo.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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