Por que uns lêem prosa e outros lêem poesia

Eu acho a Copa de Literatura Brasileira uma idéia muito divertida. E honesta. Artigos assinados, parciais e sinceros. Cousa muito melhor que a voz majestática do academicismo. Mostre-me alguém que habitualmente escreve “hoje sabe-se”, “hoje pensa-se” e eu apontarei um idiota. Idiota e totalitário: gosta de dar a entender que o que ele pensa é a expressão de um suposto pensamento geral. Mas tergiverso (tergiversar significa “mudar de assunto”; já li mais de uma vez a palavra com sentido de “ficar falando”). Vamos ao que quero dizer.

A Copa de Literatura Brasileira me incomoda um tanto por causa de seu nome. Ela diz que é de “literatura”, mas só tem ficção. Não tem poesia. Já eu incomodaria a Copa pela razão oposta: em 99% das vezes que digo “literatura”, quero dizer “poesia” ou “qualquer coisa escrita em verso”. Agora começam as eliminatórias e não há um único livro de poesia na lista. Entendo que não seria bom fazer “partidas” entre livros de ficção e de poesia. Mas também não acho bom chamar a Copa de Ficção de “Copa de Literatura”.

O que, admito, é quase só um problema pessoal. Eu é que não nasci para ler prosa de ficção. Em 2007 tentei ler The Brooklyn Follies, de Paul Auster. Não consegui chegar à metade, por puro desinteresse. Comecei a ler Middlemarch, de George Eliot. Pareceu-me uma obra escrita pelo ser humano mais inteligente que jamais viveu. Mas isso não me impediu de adquirir os DVDs com a minissérie feita pela BBC e só assistir a ela. Agora estou lendo um outro livro de ficção, de George Orwell. É muito divertido. Mas só leio antes de dormir. Para relaxar e dormir.

Na minha curta vida de leitor de prosa, poucos romances me marcaram. Certamente Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, de Machado de Assis. Brás, Quincas & Cia, de Antonio Fernando Borges, capturou perfeitamente meu estado de espírito naqueles primeiros dias do governo de Lula. Sei que um dia vou ler Middlemarch com a devida atenção. Um dia, quando eu tiver férias totais, em 2078. O único autor em que fiquei um tanto viciado foi Philip Roth. Não sei avaliar a qualidade das obras, mas aquilo realmente capturou minha atenção.

Gosto de provocar meus amigos leitores de prosa dizendo que o filme é sempre melhor do que o livro, porque o livro tem um monte de descrições que no filme podem simplesmente ser vistas, o que dá ao cinema a vantagem no quesito economia. Claro que é um argumento furado, porque há uma comparação entre duas espécies diferentes. Mas é muito divertido implicar.

Chego a suspeitar que há, em tipos extremos como eu, quase um puro leitor de poesia e teatro, alguns traços realmente distintivos. Os leitores sérios de poesia gostam de “executar” o que lêem, de reler várias vezes o mesmo verso até acreditar que ele está soando bem; o livro é apenas o suporte material, uma partitura e nada mais. Há um bom tempo não leio alguns de meus poemas favoritos porque me lembro deles inteiros e recito-os para mim mesmo. Já os leitores de prosa, prendem-se ao ato da leitura, e até fetichizam-no um pouco (ou muito). Isso é possível porque ler poesia é muito extenuante: acho que ninguém agüenta ler a melhor poesia por mais de uma ou duas horas. Não é possível sentar e ler três cantos inteiros dos Lusíadas (se clicar para comprar, leve esta edição da Porto Editora; não seja bobo de comprar uma edição mais barata e sem notas) e realmente aproveitar a experiência. Mas é possível ler prosa durante muitas horas ininterruptas com um grau até crescente de felicidade, ficando cada vez mais absorvido. O leitor de poesia é um corredor de 100 metros rasos; o leitor de prosa é um maratonista.

Tenho uma explicação muito pessoal para este fenômeno. Talvez haja algum estudo que a comprove – não tenho idéia. O que acontece é que a linguagem é feita de seqüências usuais, chamadas em inglês de collocations. Não são exatamente clichês, como “soco no estômago”, mas até compreendem os clichês. São apenas grupos de palavras que costumam aparecer juntas. Vou dar um exemplo usando o primeiro parágrafo da tradução (que me parece esplêndida) de Berenice Xavier para o capítulo CXXXII de Moby Dick. As seqüências usuais estão negritadas:

Um dia claro, um azul de aço. Os firmamentos do ar e do mar quase se confundiam nesse azul que tudo invadia; porém o ar pensativo, de uma transparência pura e suave, tinha olhar de mulher, ao passo que o mar robusto e viril se erguia em grandes ondas, fortes, prolongadas, como o peito de Sansão adormecido.

Das seqüências negritadas, “o ar pensativo” é uma subversão: quando dizemos que alguém tem “o ar pensativo”, falamos de sua aparência. Mas vale a seqüência. A primeira, a banalíssima “um dia claro”, é logo subvertida pelo belíssimo “um azul de aço”. “Ao passo que” é muito comum e eu não consegui imaginar um único bom poema que a fosse incluir. E dizer que o mar se erguia em “grandes ondas” não é exatamente uma novidade. Mas isso não piora em nada o trecho. O que quero dizer é que a boa prosa encontra um equilíbrio entre essas seqüências usuais e as seqüências não-usuais, e é isso que garante a fluência e a suavidade da leitura.

Por quê? Bem, se você aprende uma língua estrangeira e começa a olhar para a sua própria, percebe que certas palavras andam sempre juntas e são sempre processadas juntas. Já foram processadas tantas vezes que você nem precisa mais pensar para entendê-las; são expressões que já se tornaram quase instintivas. Se um texto fosse composto só delas, você teria a impressão de que não leu absolutamente nada. Se um texto fosse composto de uma proporção desprezível delas, sua leitura seria mais árdua, porque haveria muito a conhecer e pouco a reconhecer. Adaptando os termos de Shannon e Weaver, haveria muita informação (tudo aquilo que você não sabe) e pouca redundância (tudo aquilo que você já sabe).

Porém, a leitura de um poema gera de antemão a expectativa de não haver nada ali que seja banal. O poema precisa ser claro e ao mesmo tempo apelar muito menos para as seqüências usuais que compõem o uso mais corriqueiro da linguagem. Isso não tem nada a ver com o tom ou registro do discurso, só mesmo com as palavras usadas. Essa expectativa já orienta a nossa opinião de uma obra em verso (você espera ser surpreendido) ou de uma obra em prosa (você espera ser menos surpreendido).

Nesse momento surge a tentação de dizer que o verso é mais artificial do que a prosa, que a prosa é mais próxima da fala. Mas quem tem ouvido treinado sabe que muitas vezes, espontaneamente, ocorrem versos perfeitamente metrificados na fala. Além disso, a ocorrência de obras em verso é muito anterior à de obras de prosa de ficção. Só é razoável dizer que a prosa é mais próxima da fala corriqueira na medida em que tende a ter um número maior de seqüências usuais – o que, aliás, cria um enorme problema de tradução. Acho que, sempre que possível, uma seqüência usual deve ser traduzida por outra equivalente. Mas como ler um texto antigo e saber o que é uma seqüência usual e o que não é? Seria preciso um imenso e custoso trabalho filológico, o que raramente será viável.

Enfim: ao selecionar um texto em verso ou em prosa temos expectativas muito diversas. Nos extremos, uma expectativa se torna um hábito e você se torna um puro leitor de prosa ou poesia. Como eu, que posso me interessar por ler praticamente qualquer poema só para ver como ele é, mas provavelmente só vou começar a ler um romance se tiver um interesse prévio pelo assunto, e isso se o romance não for muito longo. Talvez seja possível até encontrar tipos psicológicos diferentes entre esses leitores: os de prosa querem as coisas aos poucos, e os de poesia querem tudo de uma vez.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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