Um poeta que pensou por conta própria

Não consigo lembrar a frase exata, mas Cyril Connolly escreveu em Enemies of Promise algo como “toda crítica mal escrita será pouco persuasiva”, e isto bastaria como comentário para a matéria de Lívia Deorsola sobre Bruno Tolentino para a Entrelivros, que quase termina com “é possível verificar a rigidez formal em A imitação do amanhecer (Globo, 2006), com mais de 500 sonetos que obedecem a seqüências temáticas pouco flexíveis”.

Mas há um argumento subjacente à matéria, publicada no mês passado, que merece um comentário. Lívia Deorsola pretende mostrar que Bruno Tolentino nada mais é que um “pavão provocador” e que provavelmente sua fama futura será mais devida a suas polêmicas do que a sua obra. Se será assim ou não, não sei e, francamente, acho que a fama é um critério um tanto questionável. Só que eu acho também que a opinião dos “especialistas” pode ser um critério igualmente questionável. Chego lá.

Lívia Deorsola apresenta os seguintes argumentos contra Bruno Tolentino: sua opinião de que a poesia é superior em capacidade expressiva à letra de música seria “hoje pouco defendida”, sua obra teria herdado “pouco das inovações do movimento [modernista]”, teria contestado o establishment universitário e concretista. Wilson Martins ainda aparece dizendo que “em verso e prosa escrevia como provocação, o que desde logo desqualifica o que poderia ter como valor literário”. Depois dessa, serei obrigado a crer que a biblioteca de Wilson Martins só contém exemplares do Reader’s Digest e terei de passar a dar razão ao que sempre ouvi dizer: “Como ele pode ser crítico literário, se é óbvio que odeia literatura?”

Voltando aos argumentos de Lívia Deorsola, não é difícil ver que eles partem do mesmo e velho princípio de que o modernismo brasileiro é uma espécie de “evento paradigmático” da literatura brasileira, clímax daquilo que veio antes e modelo daquilo que virá depois, restando aos futuros e então futuros aspirantes a escritores nada mais do que reatualizar a proposta de 1922. Essa visão logo ganhou a academia, da academia passou aos livros didáticos, e hoje não há um estudante brasileiro que não saiba que os parnasianos são os bandidos e os modernistas são os mocinhos. É impossível não observar o efeito que essa visão tem sobre os calouros de Letras: a esculhambação programática da Semana de Arte Moderna é a superestrutura ideológica (o pretexto, a desculpa, a legitimação) perfeita para aquilo que poderíamos chamar nietzscheanamente de “vontade de esbórnia” natural dos 20 anos. Nada melhor do que ver seus desejos mais aleatórios e superficiais confirmados pelo cânon da literatura, por bolsas de iniciação científica, pela possibilidade de um emprego universitário e do futuro respeito público. Não é apenas a reputação de alguns autores e críticos que está em jogo, mas o modo de vida de muita gente. Por isso até não dá para deixar de notar como o Estado pode corromper a cultura…

Portanto os argumentos de Lívia Deorsola são todos verdadeiros. A obra de Bruno Tolentino é sem dúvida uma anomalia diante daquilo que se espera de um poeta brasileiro: ele tem as opções de ser “singelo”, de ser “rigoroso” (e chato), de “desconstruir a linguagem” e de – aí ele já seria um messias – descobrir uma nova maneira de vestir um chapéu de abacaxi e fazer uma poesia bem Carmem Miranda para gringo ver. Aliás, digo isso porque, olhando para os estudos brasileiros de alguns – alguns mesmo, certamente não todos – departamentos de estudos de português no exterior, vemos que até hoje impera a visão de que a literatura feita no Brasil só pode ser uma mistura de vanguardas européias do século XX com clima tropical ou, como prefiro dizer, surrealismo com abacaxi.

O problema da obra de Bruno Tolentino – e vejam que com isso não estou dizendo nada sobre seu mérito – é justamente recusar praticamente todo o quadro de referências e atitudes esperadas. Primeiro, não sei quanto a vocês, mas eu não consigo mais me interessar pela questão da identidade nacional brasileira: o Brasil já é um fato, não é um projeto; você pode até questionar a idéia de “identidade nacional” (como eu questiono), mas, por favor, pode parar de escrever poemas e ensaios e romances querendo definir ou medir a maldita brasilidade? Acho impossível não perceber que essa preocupação impede a preocupação com outras coisas, digamos, mais importantes. Colocar a identidade nacional como valor supremo da literatura não passa de um ato de politização arbitrária.

Não é nem que Bruno Tolentino tenha usado seus poemas para questionar as atitudes e os ideais modernistas, porque isso ele fez em alguns ensaios. Em sua obra poética, Bruno Tolentino preferiu ignorá-los. Também preferiu ignorar o verso “livre” (com aspas propositais; problema nenhum com o verso livre sem aspas), a irreverência, certos usos afetados da linguagem (não que ele não tenha seus próprios usos afetados: sempre brinquei dizendo que Bruno Tolentino deve ter sido o único poeta brasileiro do século XX a falar em “flautim” e “zéfiro”) e aquele clima de euforia carnavalesca que deve muito mais a Walt Whitman do que a uma efetiva catarse pela batucada. Seu quadro de referências era outro e ainda por cima era determinado não tanto pelo meio mas por uma questão com que sempre se defrontou pessoalmente: a mortalidade da beleza e a pretensão da arte em compensá-la. A questão poderia ter sido outra; escandaloso, hoje em dia, é que alguém tenha usado um critério estritamente pessoal para selecionar suas leituras e escrever sua obra, em vez de seguir o famoso consenso dos especialistas ou a moda, o que talvez seja a mesma coisa, considerando a natureza neo-palaciana (funcionalismo público) de boa parte dos nossos acadêmicos.

Foi portanto por se opor em ensaios e entrevistas ao modernismo transformado em ideologia, e por ignorá-lo em sua obra poética, que Bruno Tolentino se tornou anômalo, podendo parecer apenas um “pavão provocador”. Aqui cabem algumas palavras de Otto Maria Carpeaux a que fiz alusão recentemente:

São as ideologias estéticas que se opõem à compreensão da poesia. São as ideologias de toda ordem que se opõem à compreensão do mundo. Por força das ideologias, estamos impedidos de “construir frases”, de ler poesia. Por força das ideologias, estamos impedidos de ler no dicionário do Cosmos, de “construir o mundo”. As ideologias opõem-se à ordem. E um caso especial dessa resistência ideológica é a nossa atitude caótica perante a suprema ordem das palavras, a poesia.

Ensaios reunidos, p. 280

Para quem se beneficia da ideologia literária, Bruno Tolentino é péssimo. Para quem já não a agüentava mais, e ansiava por uma voz individual, exigente, que trouxesse outras referências, Bruno Tolentino era ótimo.

Ótimo também porque não é necessário, obviamente, jogar fora todo o passado e todo o quadro de referências: basta retirar da Semana de 22 sua pretensa centralidade. Em algum de seus ensaios, T. S. Eliot falava de como era importante que a cada geração algum crítico refizesse o cânon da literatura da sua língua, mudando os autores de lugar, dando novos destaques. Bruno Tolentino não chegou a fazer isso, mas seus poemas e ensaios apontaram para novas relações e interpretações de diversos clássicos estabelecidos da poesia em língua portuguesa, aproveitando não tanto para demolir mas para ignorar a idéia de que o presente é sempre melhor do que o passado e o futuro sempre melhor do que o presente. Ao contrário do que diz Lívia Deorsola, Bruno Tolentino nunca pensou que “apenas os poetas do passado poderiam ser os verdadeiros guardiães da consciência de um povo”, porque a questão nunca foi inverter o sentido do progressismo mas recusar integralmente a idéia de um espírito inevitável dos tempos, para melhor ou para pior.

Foi por isso mesmo, aliás, que eu disse que a grandeza da obra de Bruno Tolentino era estimulante: porque uma coisa é dar uma de modernista e escrever um manifesto, estabelecendo um programa para a literatura. Se eu simplesmente viesse aqui e dissesse “1. Vamos ignorar a questão da identidade nacional. 2. É proibido fantasiar-se de Carmen Miranda. 3. O Zeitgeist foi exorcizado de volta para o inferno. 4. Quem elogiar Mário de Andrade vai apanhar etc.” eu seria apenas engraçadinho, até porque não sei se é possível planejar uma identidade; é possível ter uma identidade e ter problemas de identidade já é parte dela. Também é infinitamente ridículo proclamar para o mundo o projeto de uma literatura. Bruno Tolentino veio com sua poesia, muitíssimo extensa, e ela já contém uma rearrumação da poesia brasileira e mundial, rearrumação essa que ele meramente passou a explicar e externar em ensaios, aulas e entrevistas. É algo que sugere muitas possibilidades, porque abriu caminhos, com o perdão do clichê: sua obra não veio, como grande parte da obra de Fernando Pessoa, dar a palavra final a respeito de assuntos eternamente presentes no imaginário. A obra de Bruno Tolentino é um novo modelo, que se impõe não pela força do Ministério da Educação, que é a força das armas e não do convencimento, mas por sua força própria, e isso porque foi escrita por um poeta que preferiu pensar por conta própria a ser pensado pelos deuses de hoje e pelos sapos de ontem. O que, no país em que a vida literária é mais importante do que a literatura, também não deixa de ser um escândalo.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com

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