In passim

Bruno Tolentino, O mundo como idéia. São Paulo: Globo, 2002. p. 250

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era. É tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.

Leitura e comentário: 3m05s
[audio:inpassim2007.mp3]

O mundo como Idéia

Em 12 de novembro do ano passado, quando fiz uma homenagem a Bruno Tolentino por seu aniversário, eu sabia que ele não estava bem de saúde, mas não imaginava que exatamente dali a seis meses, em 12 de maio, eu o veria pela última vez. Fiquei muito feliz por ele ter me dito que ficou “muito feliz” quando lhe contaram da minha pequena homenagem. E, seis meses depois do último encontro, no domingo com poesia que foi-se instituindo, não consigo falar de outro autor que não Bruno Tolentino, e de outro poema que não esse, “In passim”, um dos melhores de sua obra e de nossa língua. Publico o domingo com poesia na segunda, sem corrigir a data, em nome desse ano.

Não houve outra inspiração para o domingo com poesia além de uma frase que Bruno Tolentino repetia incessantemente, sempre atribuindo-a a Manuel Bandeira: “não basta saber o que é bom, mas por que é bom”.

Quando falamos também de arte, estamos opondo algo que foi criado segundo alguma ordem a algo que está informe, ou um produto adaptado ao uso (em sentido lato) humano à matéria bruta. É uma diferença semelhante à que existe entre um boi e um bife. Naturalmente você pode dizer que do ponto de vista de Deus o boi é uma obra de arte, mas estou falando do ponto de vista do uso humano. Algumas pessoas não gostam da palavra “uso” nem de falar em “utilidade”, mas, como já disse, me parece que dizer que um poema não serve para nada (como o próprio Bruno Tolentino disse) é a mesma coisa que dizer que a alma não tem certas necessidades. E é óbvio que, assim como a alma é mais nobre do que o corpo, o “uso” de poesia pode ser mais nobre do que o uso de bifes, mas não deixa de ser uma espécie de uso. No entanto, a palavra “arte” vem do grego areté, que significa algo como “mérito, excelência, superação” – daí uma das razões por que não pensamos em arte tanto como a adesão a certos procedimentos racionais para a confecção de objetos, o “modo correto de fazer as coisas” de Ananda Coomaraswamy. Muitos objetos podem ser artísticos e ser até boas obras de arte, mas poucos têm a marca da superação inspiradora, a marca de uma naturalidade absurda que com facilidade comove o espectador qualificado.

É justamente para aumentar essa facilidade de comoção e para ajustar a percepção que não basta saber o que é bom. Quem quer que tenha insistido na apreciação de qualquer arte viu que seu gosto foi ficando mais apurado. Posso ter começado a ler poesia com Fernando Pessoa (num livro achado em casa), mas minhas opiniões sobre o que é bom e o que não é em Pessoa mudaram muito. Como toda criança, comecei gostando mais de Alberto Caeiro, e hoje prefiro mil vezes o Pessoa ortônimo e o heterônimo Ricardo Reis. Também não nasci gostando de Hildegard von Bingen e Schubert: ouvi muita música popular, que um belo dia parou de me satisfazer.

Tudo isto foi para explicar a razão de existir um domingo com poesia: se as pessoas começarem a ler poemas com mais atenção, vão apreciá-los cada vez mais. Há quem busque na pura experiência sensorial seus prazeres mais intensos, mas quem já tenha tido um verdadeiro prazer intelectual sabe que sua intensidade é maior, e até mesmo seu poder de catarse. Saber porque algo é belo intensifica a experiência da sua beleza. Talvez nunca consigamos definir perfeitamente a areté de algumas obras, e talvez daí venha seu poder de sempre nos maravilhar, mas ao buscá-la com o intelecto melhoramos como leitores. Aqui, aliás, está o que considero ser o elemento essencial da educação: um foco na transformação do sujeito, no aprimoramento de suas habilidades. Educar-se em literatura não é simplesmente ter familiaridade com certas obras de poesia, ficção, teatro, crítica etc., mas poder transformar parcialmente essas obras em si mesmo. Ao contrário daqueles que têm o fetiche objetivista, acredito que sem amor pelas boas obras pouco ou nada se entenderá delas; “transforma-se o amor na cousa amada, por virtude do muito imaginar”, e veja que o amor precede a transformação.

Toda essa recapitulação de diversas coisas que já disse, espalhadas por vários textos, ainda não diz nada sobre o poema de hoje. Mas não posso falar dele sem continuar recapitulando outras coisas. Na semana passada, por exemplo, eu falava de como me parece que Camões, já impregnado daqueles paradoxos da linguagem amorosa do século XVI português, escreveu o poema “Amor é um fogo que arde sem se ver” com imensa facilidade. Um autor pode também ficar impregnado das questões com que peleja, e Bruno Tolentino, que chegou a forjar uma linguagem própria, mesclando vocabulário próprio e emprestado (o “tordo”, a “aranha”, o “verme”, a “Idéia”, o “conceito”, o “rapto” etc.) parece, em muitos de seus poemas, estar fazendo muita força para escrever algo. Percebemos que ele tem algo diante de si, algo mais ou menos claro, e que se esforça para recuperar aquilo no discurso – daí que sua leitura exija muitas vezes um esforço semelhante àquele demandado pela leitura de textos filosóficos, isto é, não se trata apenas de deixar-se envolver pela beleza mas de tentar ver a mesma coisa que o autor viu, lembrando que o discurso é um apoio para o ato intuitivo e não o próprio ato intuitivo. Raramente há um casamento perfeito entre intuição e discurso; aliás, talvez seja um casamento tão raro que seja sempre eterno: existem algumas fórmulas que não cansam, que têm o poder de um caso encerrado da melhor maneira possível. Shakespeare seria a maior fonte de exemplos desse tipo: é impossível entrar em contato com sua obra e não passar a ler diversas situações a partir dela. Esse casamento é um dos objetivos perenes de (talvez) todos os grandes poetas, mas não é incomum que ele se realize de maneira um pouco inesperada, alheia ao projeto, e “In passim”, resumindo muitas coisas que Bruno Tolentino estava sempre tentando dizer, é, para usar suas próprias palavras, mais “um rapto no vento” do que parte de seu esforço. Um rapto feliz soprado pelo vento, que também é o Espírito.

“Tudo vai-se acabando”, e a explicação, “tudo passa / do que é ao que era”, que já começa a trair nossa expectativa. “Do que é ao que era” soa um tanto filosófico. Mas é mais razoável dizer que tudo passa do que é ao que será. Passa-se da potência ao ato. Mas tudo que existe tem a potência de morrer. O “será” de tudo que existe é um “era”. Bruno Tolentino poderia ter dito “foi”. Mas “foi” é perfeito, acabado; “era” é imperfeito, inacabado, porque tudo é “mais ou menos uns vestígios de fumaça”, ainda existindo de algum mundo. Depois o poema expande o raciocínio: nada deixa marcas no fugaz, porque tudo é fugaz. Eu poderia esmiuçar cada verso, mas creio que o leitor é capaz de fazê-lo após esse empurrãozinho.

Mas há uma grande tentação de ver um certo niilismo no poema, que parece dizer “tudo vai passar, e é uma tremenda idiotice reclamar”. A tentação morre ao percebermos a referência do último verso, a “lição de trevas”, quase um termo técnico da liturgia da Semana Santa. Com o apagar das velas da liturgia das trevas, são lidas as “lições” do Profeta Jeremias, de São Paulo etc. Essa liturgia – procure no Google por “tenebrae” para saber mais – naturalmente precede a liturgia pascal. O suplício e a morte de Jesus conduzem à sua ressurreição. E é por isso que esse poema tem uma relação íntima com outro poema do próprio Bruno Tolentino, que ele chamou “O segredo” mas fez questão de publicar, lembrando que no uso corrente também podemos falar em “segredo” querendo dizer “a coisa mais importante”:

O Cristo não é
um belo episódio
da história ou da fé:

nem o clavicórdio
nos dedos da luz,
nem o monocórdio

chamado da Cruz.
O crucificado
chamado Jesus

é o encontro marcado
entre a solidão
e o significado

do teu coração:
de um lado teu medo,
teu ódio, teu não;

de outro o segredo
com seu cofre aberto,
onde o teu degredo,

onde o teu deserto,
vão morrer, mas vão
morrer muito perto

da ressurreição.

As horas de Katharina. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 180

É irresistível aproveitar a analogia com o ciclo das estações. Há um ano homenageei Bruno Tolentino; seis meses depois encontrei-o; mais seis meses, e temos uma revolução completa. É hora de, seguindo as estações, passar por um tempo de recolhimento para depois ressurgir. As obrigações estudantis e profissionais pesam muito, e tenho planos de um formato um pouco menos desordenado para o nosso domingo com poesia. Por isso, tendo encerrado esse ciclo, declaro mais um recesso, este mais longo: acho que só volto depois do carnaval de 2008, mas a espera valerá a pena.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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