Manifestação por Karim, o blogueiro preso do Egito

Talvez eu deva começar dizendo, exatamente como os editores do site FreeKareem.org, que não concordo nem com aquilo que Karim (transliterando do árabe para o português temos “Karim”; para o inglês, “Kareem”) diz, nem gosto de seu tom. Mas isso não me impede de gostar muito menos do fato de ele ter sofrido uma tentativa de assassinato por parte de seus colegas de universidade, nem de ter sido condenado a quatro anos de prisão apenas por ter dito o que pensava.

Nunca escondo o fato de que sou católico. Como vocês podem imaginar, ouço todos os dias impropérios por isso. Pessoas não têm pudor de me dizer que desejam o fim da Igreja Católica e não sentem nenhum remorso até pelas calúnias ridículas que espalham – minha favorita até agora veio de uma professora que disse que os jesuítas davam de propósito aos índios casacos contaminados com o vírus da gripe, o que só mostraria o prodígio de os religiosos já conhecerem a microbiologia antes de Pasteur. Por isso, também nunca escondo que por mais que eu considere certas opiniões perniciosas, acho que muito mais pernicioso é querer proibir qualquer uma delas. Quando ouço insultos ou críticas à minha religião, confronto-as eu mesmo – não chamo a polícia, nem peço a prisão do meu oponente.

No entanto, quando a escola em que Karim estudava em Alexandria descobriu seu blog e suas opiniões anti-islâmicas, tratou de expulsá-lo e denunciá-lo à polícia, que o deteve até que ele fosse condenado a quatro anos de prisão. Um equivalente disso seria a PUC ter denunciado e conseguido prender o Sergio de Biasi quando ele era seu aluno porque ele é notoriamente ateu. Sim, eu e ele passamos por um episódio semelhante ao de Karim, mas pudemos mover uma ação contra a PUC, que foi impedida judicialmente de tomar qualquer medida administrativa contra nós. O reitor da PUC escreveu uma carta aos alunos nos denunciando, mas no Brasil ainda temos alguma liberdade de expressão e prevaleceu o estado de direito, não o arbítrio da turba. Tenho que admitir que o Estado brasileiro dessa vez agiu bem, perfeitamente bem.

O Estado egípcio, por sua vez, agiu bem? Mesmo que a lei permita esse tipo de prisão, não podemos condenar essa lei? Assim como os ocidentais têm o direito de se lambuzar com Richard Dawkins, não terão os egípcios? Por mais abominável que seja uma tese, ela não deve ser respondida apenas verbalmente? Aliás, permita-me dizer: se você acha que não, eu acho que você é um fracote. Ouviu o que não gostou e foi chamar a mamãe? Se você quer ser criança para sempre, vai viver num estado totalitário, e vai achar – como nem é incomum – que está tendo uma discussão política séria quando está tão-somente externando seu desejo por uma marca melhor de tirania. Uma marca que exclua, é claro, as pessoas de quem você não gosta. Aquelas que, segundo o uso contemporâneo do português brasileiro, são os famosos “fascistas” – aqueles que discordam de você.

Dada a proximidade com os dez anos do episódio da PUC que celebrizou O Indivíduo, e sabendo perfeitamente que é preciso defender a liberdade de expressão sobretudo para as pessoas de quem você não gosta, manifestarei meu desejo de que Karim seja libertado em frente ao consulado egípcio no Rio de Janeiro no próximo dia 9 de novembro, a partir das 10 da manhã. Karim já está há um ano na prisão; quero que ele saia logo, para que possa discutir livremente o que pensa, mesmo que sejam coisas com que eu realmente não concorde. Se você também acredita que não deve existir delito de opinião, e percebe que o clima político na América Latina não favorece exatamente que qualquer um fale o que está pensando, espero que vá lá também.

O consulado egípcio fica na Rua Muniz Barreto, 741 – quase em frente ao Botafogo Praia Shopping.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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