Amor é um fogo que arde sem se ver

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter, com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Leitura e comentário: 2m14s
[audio:amoreumfogo.mp3]

Talvez este seja o mais famoso poema da língua portuguesa – e já era muito antes de ser considerado uma canção popular. Aliás, para ficar na área da canção popular, sinto-me tentado a dizer que este soneto de Camões é a “Garota de Ipanema” da poesia: você já ouviu tantas vezes que é difícil prestar atenção ao que está realmente sendo dito, e repete o que ouve como repetiria um idioma que não entende. Acredito que quase toda a música popular – incluindo a bossa nova – está irremediavelmente presa a uma circunstância; não me parece que daqui a séculos as pessoas vão assistir a recitais de Tom Jobim da mesma maneira que assistem a recitais de John Dowland. Não digo isto por esnobismo: as composições mais próximas do registro popular feitas por Villa-Lobos, nossos lieder brasileiros, me parecem obras verdadeiramente superiores.

Não cito Dowland por acaso. Ele não era um poeta; era um compositor. Mas o trovador Marcabrun também era compositor, e foi das cantigas de amor e de amigo medievais que veio o modelo petrarquiano de amor, e com ele o modelo português do século XVI. Desse modelo de amor cortês veio nosso imaginário contemporâneo. Esperamos nada menos que uma espécie de visão beatífica permanente da pessoa amada; as banalidades do dia-a-dia parecem heresias e profanações desta religião íntima. As mulheres sonham em ser, mais do que amadas, idolatradas, cultuadas; os homens orgulham-se de apresentar-se como seus cultores. Bem, eu acho mesmo que a mulher é a coisa mais bela de toda a criação. Mas isso não me impede de perceber a inviabilidade do amor cortês, o que não percebemos mais há muito tempo. Se lermos o poema no contexto de outros poemas da mesma época, veremos que Amor é sempre tirano; que suas vítimas são sempre “tristes”, e ninguém desejaria escravidão e tristeza. Vale uma palavra de – sempre ele – W. H. Auden:

Historica e individualmente há novas descobertas, como o amor cortês, que criam novidade e dão nova sinceridade a novos sentimentos. À medida que o tempo passa, a descoberta tem sucesso por causa de sua verdade. Então a convenção se petrifica e é usada por pessoas que têm sentimentos muito diferentes. A retórica de Petrarca teve sua origem na busca pela fidelidade pessoal contra os casamentos arranjados, e depois passou a ser usada para levar uma garota para a cama por uma noite.

Lectures on Shakespeare, pp. 115-116

Este, aliás, é um dos trechos em que Auden deixa bem claro o quanto foi influenciado por Rosenstock.

No cristianismo é bem aceita a doutrina de São Tomás de Aquino sobre o amor, que, resumidamente, distingue entre o amor de concupiscência e o de amizade. No primeiro você deseja o objeto para si, deseja usufruir dele e pode até destruí-lo. Por exemplo, amo o chocolate e não me importo com o fato de que ele não resistirá aos meus avanços. Posso amar uma mulher apenas para usufruir de seu corpo. No segundo amor, você deseja o bem do objeto amado. É claro que nas relações humanas os dois amores estão misturados, mas isso não impede sua distinção.

Também é claro que o poema de Camões não fala de nenhum desses dois amores, nem descreve a experiência do amor como algo agradável. Ainda que o “fogo que arde” seja neutro, nenhuma das qualificações posteriores é positiva. Não há desejo de saciar-se, pois a relação é paradoxal: “é nunca contentar-se de contente / é um cuidar que ganha em se perder”. Também não há qualquer menção ao desejo do bem ou da perpetuação do ser amado. O poema é sobre este amor cortês convencional, que não é exatamente cristão; é a visão de Eros a que sempre me refiro.

Falando francamente, acredito que Camões tenha composto esse poema com uma certa rapidez. Impregnado das convenções, escrevendo nelas o tempo inteiro, de repente chegou a uma fórmula sintética, semelhante à do soneto “Pace non trovo e non ho da far guerra” de Petrarca (como aponta a minha edição da Lírica), em que pode perguntar: se esse negócio de amor, “tão contrário a si”, só faz mal às pessoas, por que será que elas o continuam desejando? Ou, desinvertendo a sintaxe, por que seu favor pode causar amizade nos corações humanos?, isto é, por que as pessoas o desejam?

Notem bem que estamos falando de desejar o Amor, não uma pessoa amada. Aí é que está, e Camões já notava, boa parte da raiz de muita infelicidade moderna. Quantas vezes você não ouviu uma mulher dizendo que acha que nunca amou, e então explica que nunca se sentiu perdida e loucamente apaixonada? Por que, se essa experiência é tão negativa, a ponto de ter produzido no século XVI uma geração de “tristes”, continua sendo desejada e tomada como parâmetro para as demais relações?

Algo me diz que a teologia mística e a ciência do discernimento dos espíritos teriam algo de muito interessante para dizer a respeito.

Autor: Pedro Sette-Câmara

www.pedrosette.com