Enquanto quis fortuna que tivesse

Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co’o tormento,
para que seus enganos não dissesse.

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,

verdades puras são e não defeitos;
e sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos.

Leitura e comentário: 2m59s
[audio:enquantoquis.mp3]

Toda antologia de sonetos de Camões tem que começar por esse, que é mesmo uma espécie de frontispício, e não acho má idéia simplesmente descartar aquelas – já as vi nas livrarias – que preferem esquecê-lo.

Por que este poema é tão bom? Por fazer uma coisa muito difícil: dizer uma coisa de cada vez, de modo claríssimo, econômico, sem faltar à melodia. É um casamento perfeito de som e significado. Dizer isso soa um clichê, mas permitam que eu prove o que disse e encha de significado uma frase digna da cerimônia do Oscar.

Já disse que gosto da divisão de Ezra Pound em poesia melopaica, fanopaica e logopaica. A melopaica têm ênfase no som: o exemplo perfeito por ser extremo está no simbolismo francês e seus filhos, que incluem, em última instância, T. S. Eliot. A fanopaica tem ênfase na imagem, e Pound cita como exemplo poetas orientais e diz que parte do impacto do poema depende da escrita em ideogramas. Não me resta alternativa além de acreditar nele, até porque eu mesmo não costumo gostar muito de poemas em línguas que entendo que sejam só sucessões de imagens descritas. A logopaica, por fim, se apóia no significado, no “conteúdo”. Pois então: cá no Ocidente, quando tentamos escrever algo, tentamos fazer o som e o significado casarem. Às vezes queremos usar uma palavra porque gostamos do som, mas ela pode não ficar bem no contexto. Ou temos uma idéia do que queremos dizer mas as palavras adequadas não vêm. Uma coisa é falar de um fantasma que vem me acordar no meio da noite, e outra é soltar versos como “Súbita mão de algum fantasma oculto / entre as dobras da noite e do meu sono”. A informação essencial do que acontece está presente nas duas formulações, mas muito mais evidente na segunda. O som dos versos a realçou, casou-se com ela, e som e informação parecem mesmo inseparáveis agora.

Assim podemos apreciar a simplicidade desse soneto de Camões. Tome a primeira estrofe: não há nenhuma informação em excesso, nenhum “floreio”, por assim dizer. A Fortuna com letra maiúscula é a deusa Fortuna: enquanto ela quis que Camões (acho melhor do que ficar dizendo “o poeta”) tivesse esperanças de felicidade amorosa, “o gosto de um suave pensamento” (como é bonito esse verso!) o motivou a escrever. A beleza acaba se manifestando até naquilo que a estrofe não é: as rimas não são afetadas, não há nada que não proceda do conteúdo.

(E, se me permitem uma nota retroativa, há alguns anos eu publiquei um poema e disse que seu primeiro verso se baseava no primeiro verso de um famoso poema de Camões; ninguém percebeu a semelhança sonora.)

Nas demais estrofes, vale o mesmo procedimento de clareza. O Amor não queria que os poemas de Camões revelassem às pessoas sensatas (de “juízo isento”) os tormentos a que submete seus escravos, então obscureceu-lhe a inteligência. Assim, é preciso dizer que as coisas extraordinárias que serão lidas não são mentiras, mas “verdades puras” que o leitor apreenderá na medida do amor (agora com minúscula mesmo) que ele mesmo tiver. Um convite ao esoterismo, talvez pensem alguns de inclinação “platônica” em sentido vulgar, como eu mesmo. Mas também um convite à experiência e, muito, muito antes de qualquer modernidade auto-centrada, uma constatação da interpretação subjetiva dos textos, e isso numa época em que a poesia, mesmo a de Camões, era um tanto convencional, até mesmo em relação aos temas. Por isso, como eu até já observei aqui, antes de achar que vai falar alguma coisa de novo volte primeiro ao vate: a chance de você levar uma rasteira se não o fizer é grande demais para ser desprezada.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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