Foge-me pouco a pouco a curta vida

Luís de Camões

Foge-me pouco a pouco a curta vida,
– se por caso é verdade que inda vivo – ;
vai-se-me o breve tempo d’ante os olhos;
choro pelo passado em quanto falo,
se me passam os dias passo a passo,
vai-se-me enfim a idade, e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Que nunca uma hora viu tão longa vida
em que possa do mal mover-se um passo!
Que mais me monta ser morto que vivo?
Para que choro, enfim? Para que falo,
se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos, gentis e claros olhos,
cuja ausência me move a tanta pena,
quanta se não compreende em quanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
de vós m’inda inflamasse o raio vivo,
por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
me há-de vir a cerrar os tristes olhos
que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
que escreveram de tão molesta vida
o menos que passei, e o mais que falo.

Oh! Que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
vejo tão triste gênero de vida
que, se lhe não valerem tanto os olhos,
não posso imaginar qual seja a pena
que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho contino um fogo vivo,
que, se não respirasse no que falo,
estaria já feita cinza a pena;
mas, sobre a maior dor que sofro e passo
me temperam as lágrimas dos olhos,
com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
vejo sem olhos e sem língua falo;
e juntamente passo glória e pena.

Leitura e comentário: 4m20s.
[audio:fogemepouco.mp3]

Esta é a única sextina que tem autoria camoniana incontroversa. Assim como a vilanela, a sextina tem regras muito rígidas, que valem a pena explicitar.

A sextina é uma composição de seis estrofes de seis versos, rematadas por um terceto. A 2a estrofe deve repetir as palavras finais da 1a, mas por uma ordem determinada; as palavras finais dos 1o, 2o, 3o, 4o, 5o, e 6o versos deverão rematar, na estrofe seguinte, respectivamente, os versos 6o, 1o, 5o, 2o, 4o e 3o. Cada estrofe deve repetir este jogo em relação à estrofe imediatamente anterior, e os seis termos que constituem a chave do poema devem surgir pela ordem por que foram usados na 1a estrofe no terceto final.

(Camões. Lírica Completa – III. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2002. p. 76)

De clarificações do conteúdo este poema só precisa de uma: a palavra contino significa contínuo. No mais, é claríssimo; as dificuldades vêm da algumas inversões sintáticas que a leitura atenta é capaz de desfazer.

Uma forma tão cheia de regras levanta algumas questões interessantes. Hoje se coloca uma certa primazia da inspiração sobre tudo o mais e há uma grande desprezo pelas formas fixas. O curioso é que ao mesmo tempo boa parte da poesia contemporânea de viés, digamos, “inspiracionista”, pretende-se lúdica ou ao menos engraçadinha. Mas escrever uma sextina é um jogo; as regras são mais complicadas, demandando mais atenção e, no dizer de um bom amigo, mais fubá. O resultado do jogo da sextina não é só chegar ao final. Se você vai correr uma maratona, não pode morrer na linha de chegada; precisa continuar vivo e saudável. A sextina, como qualquer poema, precisa ter naturalidade. Não necessariamente a naturalidade da fala corrente, mas alguma outra chave de coerência, além das regras de uso das palavras finais.

É interessante pensar em como um exercício de virtuosismo como esse, que não é só um exercício de virtuosismo, recoloca a questão de como saber que um bom poema é um bom poema. Se há regras claras e você as cumpre com uma certa elegância, conseguiu escrever um bom poema? Bem, não se pode dizer que você não tem algum mérito. Esta seria uma maneira “democrática” de julgar, oposta ao elitismo romantista (não escrevi “romântico” de propósito) em que vivemos, que postula a ausência de regras e acaba transformando a apetência do crítico em critério de julgamento. Bem ou mal, o fruto da habilidade nas regras da sextina é perfeitamente objetivo e tangível. Mas, se essa habilidade pode até servir para passar num exame de qualificação, talvez não seja suficiente para fazer um poema realmente bom, que sempre tem um algo a mais que o faz ficar de pé; um sopro, como o sopro de vida que há numa pessoa e não há num boneco. O importante, porém, não deixa de ser que a melhor arte tem sempre esse algo a mais, e não a menos que o respeito pelas regras. Você, leitor, pode agora me acusar de ver a arte como uma espécie de destreza – e você terá razão de pensar que eu penso isso.

Mas, passando ao poema mesmo, impressiona como Camões conseguiu colocar nele tantos temas que lhe preocupavam, usando tantos de seus truques preferidos: o contraste entre os olhos dele e da amada, falando ora de uns, ora de outros; os contrastes entre morte e vida; a fugacidade do bem e a durabilidade do mal; e o paradoxo que é ter tudo isso ao mesmo tempo. Existe a tentação de dizer que se trata de um amontoado de clichês quinhentistas, mas a recorrência deles na obra de Camões, que passou boa parte da vida longe de Lisboa e sem dever nada ao bom gosto das gentes bonitas de seu tempo, nos faz ver que são preocupações sinceras, e há um prazer imenso – vocês já tentaram escrever um poema? – em botar ordem na casa e transformar em discurso certos pensamentos e intuições. Com regras bizarras, melhor ainda.

Mas o poema difere um tanto de outros ao falar de olhos que ainda não foram vistos. O comum é encontrar poemas que falem de amores presentes e passados; ao menos nessa época (e acho mesmo que em todas), poemas de amores não-vividos são raros, ainda mais do grande amor que ainda não veio. Mais incomum ainda é ver este poema ser escrito por um homem e não por uma mulher – estas sim as rainhas dos poemas sobre amores não-vividos – , e não qualquer homem, mas aquele que, em nosso idioma, é talvez o que transmite mais macheza naquilo que escreve.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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