Debates e diagnósticos

O caderno Prosa & Verso do Globo do sábado retrasado trouxe um texto que pretendia explicar os “ataques aos intelectuais”, que, na opinião dos missivistas do jornal, “só defendem os direitos humanos dos bandidos”. É verdade que este já se tornou um topos para boa parte das pessoas que conheço e merece ser debatido como qualquer outro tema, mas o jornal mostrou algo um tanto assustador. Sem querer fazer o trabalho do repórter, penso que a maneira certa de abordar o tema seria propô-lo como uma tese àqueles que se dizem intelectuais e sentem que a acusação lhes é dirigida.

Se ainda há alguma pretensão a um “debate”, deve haver uma proposição clara, da qual se retirou tanta ambigüidade quanto possível, e uma tentativa de verificação de sua veracidade ou falsidade. No caso, a proposição é bastante genérica, já que fala em “os intelectuais” e “os bandidos”. Concordando ou discordando, não me incomodaria ler respostas que dissessem que a proposição é falsa, que os intelectuais não defendem só os direitos humanos dos bandidos, que na verdade estão zelando para que não caiamos na barbárie, que é melhor sofrer a injustiça do que praticá-la etc. Só que todos os cinco intelectuais convocados pelo jornal presumiram de antemão o absurdo da tese e passaram a diagnosticar seus proponentes, como se o que dissessem fosse apenas um sintoma de uma doença e não a conclusão a que um ser humano, perfeitamente dotado de inteligência, chegou. A inteligência pode errar; o problema é presumir de antemão que há alguma espécie de doença onde há ou haveria tão somente o erro.

Isso é uma mudança de assunto e de foco. Não creio que seja, em todos os casos, uma estratégia consciente. Mas é uma atitude que literalmente impossibilita o debate. Será que os “intelectuais” acreditam que só eles têm o direito de propor teses, de dizer coisas relevantes? Será que, seguindo o secular corporativismo brasileiro, querem permanecer acima de qualquer crítica?

Observe ainda como essa atitude leva-me também a tentar diagnosticá-los. Não vejo nenhuma razão para aceitar a mudança de foco que os intelectuais entrevistados propuseram. Em represália, sinto-me compelido a diagnosticá-los também. Mas nisto corro o risco de tornar-me igual a eles, de colocar-me acima do debate. Logo adquiro o vício e coloco-me acima de qualquer debate, meramente invertendo a polaridade do discurso: eles fazem seus diagnósticos “de esquerda” e eu faço os meus, “de direita”. Assim, quando um grupo começa a só falar do outro, o mundo real em que ambos vivem começa a ser desprezado.

O desprezo do mundo real que advém desta atitude tem conseqüências sociais graves, como alertou Rosenstock no clássico A origem da linguagem (cuja tradução gostaria de refazer: vejo coisas ali que… Enfim. Só digo aos leitores que se tratava de transcrições de palestras proferidas em inglês por um alemão; o original era um caos absoluto). Rosenstock diz que cada ordem inicia uma “taça de tempo” que será preenchida por seu relatório. Ao “faça” deve-se seguir o “fiz”. O mesmo, analogamente, vale para a pergunta: “Os intelectuais só defendem os direitos humanos dos bandidos?” A ausência de resposta cria um vazio perturbador. Se nos relacionamentos individuais a ausência de respostas diretas tem um poder corrosivo e fatal, imaginemos o mal que provoca no discurso publicado que é, enfim, considerado “público”. Digam que não, que não defendem só os direitos humanos dos bandidos. Digam que os bandidos também são gente. Ou digam que sim. Mas respondam diretamente ao que foi proposto — mesmo que pareça absurdo ou repulsivo — simplesmente porque o meu gosto pode ser diferente do seu, e fazer cara feia para uma idéia não é o mesmo que provar sua falsidade.

Do mesmo modo, não é demais pedir aos leitores que considerem certo ou errado o que digo, que concordem ou discordem total ou parcialmente, mas que não venham dizer que digo o que estou dizendo porque sou branco e de classe média. Falem daquilo que estou dizendo, mas não falem de mim. Afinal, a estratégia do diagnóstico pode ser usada contra qualquer um, sempre em prejuízo de todos.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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