Pensando a brochada cósmica

O texto de Pedro dá nomes a alguns fenômenos que observamos com cada vez mais freqüência e intensidade, e que giram em grande parte em torno de um culto à mediocridade, ao cinismo, à completa banalização e desprezo de qualquer aspiração de transcendência. Note que quando aqui digo transcendência estou falando no sentido mais amplo possível, de superação, de ver mais longe, de fazer melhor, de compreender mais perfeitamente, de não se contentar com o que é fácil, simples, óbvio ou cômodo.

Trata-se de algo tão onipresente que por vezes fica até difícil de enxergar claramente, mas há modernamente uma pressão social fortíssima para que não se busque fazer nada com excelência. Se alguém demonstra qualquer inclinação nesse sentido, imediatamente começa a receber reações cujo subtexto vai desde escárnio condescendente nos casos mais brandos até “quem você pensa que é” quando a intenção é realmente séria.

Existem muito motivos para isso e o processo é complexo, mas uma boa parte vem de um acordo tácito em investir na profecia auto-realizante da falta de sentido. Em outras palavras, vamos todos combinar sermos uns merdas que desde que não haja contra-exemplo podermos nos confortar no pensamento que não existe realmente nada melhor do que isso. Por isso quem tenta fazer melhor incomoda – vai que o sujeito consegue e então a desculpa da inutilidade de sequer tentar torna-se menos admissível. Por isso as pessoas aplaudem no final do filme quando se discursa sobre os méritos de desistir; porque a opção seria o sujeito que desiste ser na verdade um otário e nesse caso temos que escolher entre sermos também otários ou realizar um grande esforço de autosuperação.

3 comentários em “Pensando a brochada cósmica”

  1. Estive pensando sobre isso, hoje de manhã. Ainda existe cultura? E erudição? Não conheço ninguém que tenha ou se há, não conheço ninguém que se orgulhe disso.

    É bom ser pobre de espírito, imundo, canalha, ignorante e acomodado. É bom ser assim porque todo mundo é assim, e não queremos parecer desajustados, né?

    Morro de vergonha de dizer que leio livros, que não sou chegada a televisão, que levo a política a sério. Tenho medo de me internarem num hospício. E olha que não sou culta não, nem, é claro, erudita, é só uma inclinação a não rolar no barro nem comer capim. E já basta para eu ser uma aberração. Imagino que horror deve ser a vida de quem de fato tem conteúdo, porque a indignação deve ser sufocante.

    Pelo visto, a mania de pender para o pior é epidêmica. Mas não quero falar de outros países; só conheço o Brasil e me amarga a boca cada vez que eu penso nisso.

  2. Oi Badá, saudações solidárias. Em grande parte dos contextos a inclinação a não rolar no barro nem comer capim realmente corre um bom risco de gerar olhares atravessados. (bleah)

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