Cem pregos (e a teoria da brochada cósmica)

Domingo fui ao cinema ver Cem pregos, um filme que passou no Festival do Rio. É a história de um professor de filosofia que pira e vai “viver a vida simples”. Logo no começo há uma cena interessante, engraçada dependendo do seu ponto de vista: o professor cita um trecho de Adorno que fala de como tudo é industrializado e não é mais espiritual, blá, blá, blá. O tipo de coisa que me faz dizer: essa é a sua vida, meu filho, não venha encher o meu saco. Admito que o leite de caixa possa ter causado um grande impacto cognitivo quando surgiu. Mas se você não foi ordenhar vacas, bem, você não está suficientemente preocupado. No filme, os alunos também se limitaram a olhar para o professor com cara de “tá, posso ir agora?” Eu ri. Pouca gente riu.

Logo depois disso o professor conversa com uma aluna indiana, que lhe diz que quando era criança gostaria de salvar o mundo. Curioso foi que naquela hora eu pensei: essa é a ideologia do Anticristo, porque o mundo já foi salvo. Como Deus respeita a liberdade, a salvação é opcional. Mas ela já foi oferecida. Assim como o demônio é o macaco de Deus e o inimigo do homem (não de Deus, que ele não é idiota), a salvação promovida por meios mundanos só pode ser uma versão grotesca da divina. Cristo trouxe o céu; o homem trará a falsa promessa da paz mundial e da previdência social perpétua. Mas, você, é claro, é livre para depositar sua fé no secretário-geral da ONU, no presidente da república, no burocrata que mais lhe apetecer. Enfim: como gosto de repetir, respeito perfeitamente o ateísmo enquanto atitude intelectual, mas a fé na burocracia é intolerável.

O fato de a personagem ter falado em salvar o mundo não me fez julgar nada a respeito do filme. Afinal, ideologia do Anticristo ou não, “salvar o mundo” já é um topos, um lugar-comum da nossa cultura. O filme prosseguia, mantinha meu interesse e eu pensava: ok, já entendi, o negócio é parar de ler e estudar e ficar tomando vinho na frente do rio Pó. A apologia dos sentimentos em detrimento da busca intelectual também é comum. Até tenho alguma simpatia por ela. Estudar é árduo, muitas vezes é árido, e os frutos são demorados e modestos. Sem contar o fator de humilhação: não é incomum que a percepção de algo há muito buscado seja acompanhada da percepção da própria cupidez e mesquinharia. É preciso admitir: gostamos das idéias e atitudes idiotas que temos. Portanto, meu caro, se você desistiu, eu te entendo. Mas, por favor, não venha universalizar a sua desistência e o seu fracasso. Você não entendeu o que queria: isso não é prova de que toda a inteligência humana está fadada ao fracasso. Isso só é prova de que a sua vaidade histérica e tresloucada está passando muito bem.

Esse, aliás, é o fenômeno que chamo mui jocosamente de “teoria da brochada cósmica”: o sujeito não consegue escrever um bom poema, e diz que a poesia acabou, que não é mais possível etc. Aí começam as desculpas: a fragmentação do homem contemporâneo, o capitalismo, a industrialização etc. Já que hoje em dia a moda é falar em “a lógica de XXX”, sugiro que comecem a estudar a lógica da brochada. Ou melhor, repetindo uma certa maneira ridícula de falar, que vão “pensar a lógica da brochada”.

Pensava eu nessas coisas durante o filme, querendo saber o que seria daquele professor. Será que ele faria uma longa apologia final de que descobriu que alguns aposentados e uma dentuça talentosa à beira do rio valiam mais a pena que as alunas da universidade e sua BMW conversível? Ah, mas ele tinha que ler um monte de livros. Isso era muito chato. Será que perceberia que só estava precisando de umas férias, pediria desculpas pelas loucuras que fez, e tentaria voltar à vida de antes?

Nada disso.

Nosso querido professor fez, duas ou três cenas antes de o filme acabar, um discurso perfeitamente satanista. Um clichê dentro do contexto do satanismo, é verdade, mas o tipo de coisa que você espera em outro tipo de filme. Disse que no Juízo Final Deus é que será julgado por ter oprimido a humanidade, e que sequer salvou seu Filho da morte na cruz. Não disse “ah, Deus não existe, me deixem dormir”. O professor, que tem uma semelhança fisionômica proposital com a imagem comum de Jesus Cristo e que por isso passou a ser conhecido por este nome entre os outros personagens, simplesmente proferiu estas palavras, gratuitamente, logo após dizer que “um café entre amigos vale mais do que os livros de filosofia” ou algo assim. Eu não tenho nada contra o café entre amigos e talvez possa ser acusado de tomar cafés demais entre meus amigos e ir a aulas de menos. Mas, raios, a filosofia é um bem, não preciso explicar.

Se fosse só isso, o filme seria simplesmente bizarro. Mas, assim que ele acabou, foi aplaudido pela sala inteira. O que levou as pessoas a tantas palmas? Um anticristianismo latente? A idéia de que se suas vidas são tediosas então Deus mesmo deve ser culpado? Não sei. Mas saí da sala lívido e apavorado.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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