Os bons sempre vi passar

Luís de Camões

Os bons sempre vi passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais m’ espantar,
os maus sempre vi nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado.
Assim que só para mim
anda o mundo concertado.

Leitura e comentário: 3m56s
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Na semana passada completei 40 domingos com poesia, e aproveito este 41o para inaugurar uma nova fase, um pouco menos desordenada. Parece-me benéfico para mim e para os leitores seguir de agora em diante algum critério, em vez de falar sobre qualquer poema que me apeteça no momento. O primeiro critério não poderia ser outro: Camões. Durante alguns domingos, fiquemos com poemas dele e apreciemos a razão de ele ser, de um certo modo, o pai literário da língua portuguesa.

Escolhi este poema, composto só de uma estrofe, por sintetizar — gostar de poesia é gostar de sínteses e compactações — perfeitamente um tema ao qual Camões sempre retorna, o “desconcerto do mundo”, isto é, o fato de os maus serem premiados pela Fortuna (lembre-se, a letra maiúscula indica a referência a um deus, uma entidade, sem querer dizer que Camões acreditasse literalmente na deusa Fortuna) e os bons preteridos por ela.

Agora, para apreciar a perfeição de uma síntese, é preciso ter tentado sintetizar alguma coisa. Para admirar a simplicidade, é preciso ter tentado ser simples. Quando você vai escrever — ou ao menos quando eu vou escrever — percebe que o comum é realizar uma de duas atividades: ou tenta verbalizar pela primeira vez (na sua biografia individual, não necessariamente na história da humanidade, claro) alguma intuição, algum sentimento, ou tenta reordenar alguma coisa que já sabe. As duas atividades têm dificuldades próprias, variáveis segundo o público que se quer atingir, as limitações do meio etc. O ideal, nas duas, é conseguir ser sintético e simples, ou conciso e claro. “Brevity is the soul of wit”, diz Polonius em Hamlet.

(“Wit” é uma palavra difícil de traduzir. Prefiro “espírito”, cujo uso era comum em português, de onde se derivou “espirituoso”: “a concisão é a alma do espírito” nos dá um paradoxo interessante, mas que chama a atenção demais, desviando-a do que a frase quer dizer. “Graça” é uma boa tradução, mas nem tudo que tem “wit” é necessariamente engraçado. Lawrence Flores, em sua tradução histórica de Hamlet, a ser publicada ainda este ano, optou por “a concisão é a alma da argúcia”, que é uma excelente saída.)

Agora, ser conciso e claro em sete sílabas métricas, com rimas, já é um trabalho de outro nível. Nosso gosto poético se tornou muito afeito ao simbolismo, aceitando muita obscuridade em nome de uma certa beleza sonora. A semente do mal ali contido germinou plenamente e, para que não digam que é só opinião minha, Ferreira Gullar já me disse pessoalmente que a maior parte dos poemas que hoje se escrevem são ininteligíveis. A beleza que vem da exposição claríssima de uma idéia parece nos ofuscar; aliás, há muito é comum ver a rejeição de obras em que tudo conspire para a clareza.

Antes que me acusem de estar querendo uma arte que só proponha teses, devo lembrar que normalmente quem insiste que a arte não deve propor teses normalmente quer dizer que a arte não deve propor certas teses que desagradam a si; e que certas obras de arte são mais afeitas à proposição de teses do que outras. Um poema curto se presta muito bem a isso. Uma obra dramatúrgica se presta muito mal. A razão é que, com toda justiça, não achamos ruim que alguém tente nos convencer de algo se ficar claro que esta é sua intenção, mas detestamos que nos tentem convencer de algo sorrateiramente. Por isso a clareza na obra dramatúrgica é de outra ordem. O príncipe Hamlet é claríssimo enquanto personagem, enquanto imitação de pessoa, não enquanto idéia. Por acaso, este poema de Camões é claro enquanto idéia: há um desconcerto no mundo, exceto para ele, em função das razões expostas.

Somos movidos pelo ritmo e pelas rimas, mas uma tese de fácil inteligibilidade também tem poder de comoção. “Os bonzinhos só se ferram, os maus só se dão bem.” É isso que Camões está dizendo. A reação é imediata. Pode-se ter um mal-estar por perceber aí a denúncia de alguma estrutura perversa da qual o leitor se beneficia: por exemplo, acho que ninguém vai negar que a exigência de diploma para o exercício de certas profissões há de ter aniquilado vocações e vidas. E certamente há quem saiba que ocupa um lugar de fato, mas não de direito. Defender o establishment é defender a própria subsistência. Também é possível colocar-se do lado dos injustiçados e ter simpatia instantânea pelo que o poema diz. Mas também se pode ir ainda além, e ser comovido pela identificação com Camões, por saber que nem na maldade foi obtida a recompensa esperada.

É inevitável aqui trazer o tema da crença na vida eterna. Se seguirmos uma linha formalista e quisermos absolutizar o poema, veremos que ele se encerra na imanência deste mundo, que há uma ordem cósmica da qual Camões foi apartado. Mas o poema que se segue a este na minha edição da poesia completa termina dizendo que “Os que nunca trabalharam / (…) / perderão o eterno bem, / se do mal não se apartaram.” Portanto, fora do contexto da obra, o poema tem uma interpretação; no contexto, outra. O que é suficiente, é claro, para agradar aos sofredores deste mundo das mais variadas inclinações.

Só não devemos esquecer que um poema, não importando a sua linha de análise, é um objeto produzido por um ser humano real; e, se me é permitido um certo psicologismo, este poema parece ter uma certa ironia resignada: vejo Camões escrevendo-o para divertir a si e a seus amigos, quase de uma só tacada. Não digo isso gratuitamente: há muitos poemas com o mesmo tema, mostrando que Camões sempre pensava no assunto; a palavra que usa para terminá-lo, “concertado”, tem a mesma raiz da palavra que termina a famosa (um de meus poemas favoritos pelo ritmo) oitava do desconcerto do mundo, que diz: “ver e notar do mundo o desconcerto”, isto é, Camões não só pensava sempre no assunto como pensava usando esta palavra; e a rima de “tormentos” e “contentamentos” é, na poesia do século XVI, de uma banalidade que não denuncia outra coisa que a facilidade mesma.

Autor: Pedro Sette-Câmara

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